15 atividades fáceis e baratas para estimular o desenvolvimento infantil de crianças de 0 a 12 meses

Pensando em comprar mais brinquedos para os seus filhos? Ao invés de gastar dinheiro com peças que logo são esquecidas pelos pequenos, por que não investir em atividades simples, práticas e baratas para estimular o desenvolvimento das crianças de 0 a 12 meses? Aqui apresento algumas atividades testadas e aprovadas aqui em casa. Vamos lá!

Atividades fáceis e baratas para crianças de 0 a 12 meses

Com o nosso dia a dia cada vez mais cansativo, falta tempo de bolarmos atividades feitas por nós mesmos para os nossos filhos. É muito mais fácil ir até uma loja e comprar um brinquedo ou simplesmente colocar a criança na frente de uma tela (tablet, TV ou celular). Porém, o que elas estão aprendendo com tudo isso? O que essas atividades as ensinam de verdade?

Muitas vezes, bolar uma atividade é mais simples e muito mais barato do que nós imaginamos. Por isso, eu deixo aqui 15 dicas de atividades que eu fiz com a minha filha e que ela curtiu brincar. Houveram outras, algumas que ela não se interessou, outras que eu não achei o resultado relevante. Mas essas abaixo estão completamente aprovadas! Veja só!

Ah, por conta da exposição e por serem fotos do meu álbum pessoal, eu tampei o rosto da minha filha com emojis. Agradeço a compreensão de vocês! 🙂

Atividade 1: Deixando o bebê de bruços

Embora a Sociedade Brasileira de Pediatria recomende que os bebês não durmam de bruços, colocá-lo nesta posição durante os momentos em que ele estiver acordado pode trazer diversas vantagens para o seu desenvolvimento. Esse tipo de estímulo pode começar por volta de um mês de idade, durante alguns minutos todos os dias. A princípio, ele pode não gostar muito desta posição, mas vale a pena investir nisso, pois ajuda a fortalecer os músculos do pescoço, peito e costas; previne o achatamento da cabecinha do bebê, por ficar muitas horas deitado de barriga para cima e ajuda na construção da força necessária para as próximas etapas – rolar, sentar, engatinhar e andar.

Como fazer?

Essa é a atividade mais básica que eu vou apresentar aqui. Você não precisa gastar nenhum dinheiro com ela, e mesmo assim estará beneficiando enormemente o seu bebê. Em casa, essa era a posição que mais contrariava a minha filha. Para tornar esse momento mais interessante, eu comecei apoiando-a na almofada de amamentação, como nas fotos abaixo. Em frente à ela, eu colocava brinquedos para ela explorar, livrinhos com figuras coloridas, um espelho (que ela adorava!) ou a mamãe aqui cantarolando ou apenas conversando com ela. Com o tempo, o bebê aceita ficar mais tempo nessa posição, por isso, não desanime!

Quando começar? A partir de 1 mês, com supervisão.

Montagem com 4 fotos mostrando um bebê de bruços, brincando com um brinquedo. Estímulo infantil.
Brincar de bruços estimula os músculos do bebê.

ATIVIDADE 2: Descobrindo o gelo

Essa atividade também é super simples e ajuda a criança a entender conceitos como “frio”, “escorregadio” e “molhado”. Além disso, estimula a criança a tentar pegar o objeto (movimento de pinça), contribuindo para o desenvolvimento da coordenação motora fina. Ela também ajuda na concentração e foco, pois a criança tem que se concentrar para pegar o gelo, e estimula a persistência, na medida em que quando o gelo “desliza” ela tem que recomeçar a brincadeira.

Como fazer?

Pegue uma vasilha com bordas altas que você tenha na sua casa e coloque duas ou três pedrinhas de gelo. Se você quiser tornar a brincadeira mais divertida, você pode fazer os gelos em formatos diferentes (estrelas, carrinhos, corações) com forminhas que achamos nas lojas de utensílios domésticos ou então preparar as pedras com água e corante alimentício. Mas atenção, como o bebê pode colocar as pedrinhas de gelo na boca o supervisione sempre.

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Criança brincando com uma vasilha e algumas pedras de gelo.
Descobrir o gelo pode ser muito mais do que refrescante!

ATIVIDADE 3: Massinha caseira colorida e comestível

Essa atividade é muito legal, mas se prepare para um pouco de sujeira (e, convenhamos, quanto mais sujeira, mais legal é né gente)! Fazer a própria massinha tem muitas vantagens: você sabe exatamente quais ingredientes estão sendo utilizados e pode fazer das cores que você quiser. Embora o intuito da brincadeira não seja comer a massinha, se a criança experimentá-la (temos que pensar muito nisso na fase oral) não tem problema.

Além de estimular a imaginação, pois depois de pronta dá para bolar diversas figuras, a massinha trabalha com o conceito de textura (macia, pegajosa, grudenta, etc.), cores (verde, azul, rosa, amarelo) e concentração.

Como fazer?

Você vai precisar de apenas três ingredientes: amido de milho (a famosa Maizena), água filtrada e corante de alimentos (esse item é opcional). Eu fiz no olhômetro mesmo: coloquei um tanto do amido em uma bacia e fui adicionando água aos poucos (é importante que seja aos poucos mesmo), até a massinha ficar com a consistência firme, mas maleável. Depois pinguei algumas gotas do corante alimentício e pronto, diversão garantida! É importante salientar aqui que o foco não é apenas no produto final, mas no processo em si; portanto, deixe seu filho misturar os ingredientes com você e sentir a mistura de água e amido se transformando. Caso você opte por usar o corante, mixe as cores, misture-as, ensine que azul e amarelo vira verde, por exemplo.

Em relação à bagunça, eu recomendo você fazer essa atividade fora de casa, no quintal ou em uma sacada de apartamento. Caso você não tenha nem um e nem outro, forre o chão com uma toalha velha ou um plástico. É aconselhável também que todos estejam vestidos com roupas que podem manchar (para as crianças, uma boa opção são os aventais impermeáveis de atividades). Essa massinha dura bastante; basta armazená-la em um lugar seco e embalada em papel filme. Porém quando você perceber que ela está suja, com uma cor diferente ou cheirando mais forte, descarte-a.

Agora, mão na massa (literalmente)!

Quando começar? A partir dos 6 meses, com supervisão.

Duas crianças preparam e brincam com uma massinha rosa comestível feita de amido de milho, água e corante de alimentos.
Além de ser uma brincadeira divertida, a massinha caseira não oferece perigo se o bebê a colocar na boca.

ATIVIDADE 4: Cesta dos tesouros

Esta atividade trabalha com diversos pontos do desenvolvimento infantil, desde texturas (duro, mole, áspero, macio, pesado, leve, quente, frio), formas, cores, até o desenvolvimento psicomotor, e a coordenação olho-mão-boca (a criança tem que se esforçar para pegar os objetos, segurá-los, levá-los até a boca, etc). Aqui em casa, minha filha passava um tempão explorando os objetos, analisando-os, “experimentando-os” e batendo uns nos outros para produzir sons. Para nós, pais ou cuidadores, é uma ótima oportunidade para presenciarmos a curiosidade e o descobrimento dos bebês.

Como fazer:

Pegue objetos dos mais variados tipos que você tiver em casa. O interessante aqui é que eles tenham formatos, cores, texturas e pesos diferentes. Vale tudo: esponja (nova) de cozinha, peneira, coador, bolinhas (cuidado com o tamanho para evitar engasgo!), colheres de madeira e de inox, tecidos macios e fofinhos, buchas de banho, lixas de unha, potes de plástico, etc. O cuidado que devemos ter aqui é com o tamanho dos objetos (nada de peças pequenas que o bebê pode engolir), a limpeza dos mesmos e a segurança das peças (objetos pontiagudos devem ser mantidos longe das crianças). Devemos ter em mente que o bebê irá colocá-los na boca, então nada de oferecer à ele uma esponja usada ou molhada (eca!).

Uma forma interessante de apresentar esses objetos para a criança é em uma bandeja de cor neutra (as bandejas coloridas tiram o foco dos objetos). Arrume os objetos na bandeja de forma que a criança tenha vontade de pegar e brincar; normalmente, 5 ou 6 peças, dependendo do tamanho, já são suficientes. Enquanto a brincadeira estiver rolando, converse com seu filho sobre os objetos: “olha essa bolinha vermelha”, “hm, essa colher é gelada né”, “ui, essa esponja é bastante áspera”, e assim por diante. Assim, você estará contribuindo para a formação do vocabulário dele também. Porém, evite falar o tempo todo: estimule também a concentração do pequeno e para isso ocorrer o silêncio é importante.

Quando você perceber que o seu filho já perdeu o interesse nesses objetos, é só trocar por outros!

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Montagem de seis fotos de uma criança explorando uma cesta de tesouros: diversos materiais com texturas, cores, pesos e formatos diferentes.
A cesta de tesouros estimula a visão, o tato, a audição e os demais sentidos do bebê.

ATIVIDADE 5: Estilingue de pompom

O estilingue de pompom nada tem a ver com o estilingue que nós conhecemos do tempo que éramos criança. Esse é uma brincadeira indoor (de dentro de casa) e o objetivo é se divertir atirando pompons uns nos outros. Eu me lembro das gargalhadas que minha filha dava quando acertávamos uns aos outros. Até nosso cachorrinho entrou na dança.

Embora essa atividade seja engraçada, ela trabalha com força (a criança precisa ter força para puxar a bexiga e soltar) e mira (o legal é acertar em alguém né ou desviar de um pompom).

Como fazer:

Você irá precisar de um copo descartável, estilete ou tesoura, uma bexiga vazia, fita adesiva e pompons. Retire o fundo do copo descartável com o estilete ou uma tesoura. Pegue a bexiga e amarre a ponta (igual você amarra quando enche o balão) e depois corte a ponta da outra extremidade da bexiga. Essa ponta cortada da bexiga será encaixada no fundo do copo que você cortou. Para que eles não se escapem, prenda bem com fita adesiva. Depois, é só colocar o pompom dentro do copo e puxar a ponta amarrada do balão. Diversão mais que garantida para a família toda!

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Montagem com quatro fotos mostrando uma família brincando com um estilingue de pompom feito com copo descartável, bexiga e pompons.
O estilingue de pompom ajuda a criança a ter força para puxar a bexiga e a mirar no seu alvo.

ATIVIDADE 6: PINTURA COM GUACHE NO PAPEL FILME

Essa atividade é muito legal para fazer quando você quer uma brincadeira que não faça sujeira. Além de deixar o seu pequeno soltar a criatividade misturando cores e pintando com mãos, pés, pernas e bumbum (minha filha sentou em cima hehe), essa atividade trabalha com a coordenação motora fina e cores.

Como fazer:

Você precisará de papel sulfite, guache de várias cores e papel filme. Pegue o papel sulfite e pingue várias gotas de guache de diversas cores. Quando mais cores você utilizar, melhor. Com cuidado, embale esse sulfite com papel filme, de forma que não haja espaço para a tinta sair e sujar o chão e a criança. Pronto! Entregue para o seu filho e deixe ele explorar a atividade e desenvolver uma bela obra de arte abstrata.

Eu recomendo que depois que a criança finalizar a atividade, você deixe o papel secar (sem o papel filme, claro) e pendure o desenho depois de seco pela casa. Imagine a alegria do seu pequeno vendo a pintura que ele fez enfeitando a sala ou o quarto dos pais?!

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Criança brincando com tinta guache em um papel filme.
As pinturas são sempre um estímulo à imaginação e criatividade.

ATIVIDADE 7: Desafio da mini-cama de gato

A cama de gato é um desafio que estimula a concentração, a coordenação motora grossa e a persistência. É como um quebra cabeça. A criança tem que parar, pensar, escolher a peça que deseja retirar e fazer as tentativas. Quanto mais trançados você fizer, mais difícil será. Recomendo começar com poucas tranças, para não desestimular a criança, e ir aumentando aos poucos. Para crianças maiores, que já andam, você também pode fazer a cama de gato maior, nas paredes, para eles atravessarem com o corpo todo. Dê asas à sua imaginação.

Como fazer:

Você irá precisar de uma caixa organizadora com furos (você encontra esse tipo de caixa em lojas do tipo R$1.99), barbante ou fio de nylon e alguns bloquinhos (pode ser de EVA, Lego ou qualquer brinquedo da criança que passe pelo trançado). Você também pode usar uma caixa de sapato e fazer furos nas laterais. Com o barbante ou com o fio de nylon faça uma espécie de teia, como na foto abaixo. Como foi dito anteriormente, quanto mais fechado o trançado, maior o desafio. Coloque os brinquedos no fundo da caixa e entregue ao seu pequeno. Esse é um ótimo entretenimento para dias frios e/ou chuvosos.

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Na imagem, pode-se ver uma caixa com furos nas laterais e um barbante fazendo uma espécie de teia para que a criança tenha o desafio de pegar os objetos no fundo.
Ótima atividade para dias chuvosos e/ou frios.

ATIVIDADE 8: palitinhos de sentimentos

Super fáceis de fazer, os palitinhos de sentimentos servem para várias coisas e em diversas ocasiões. Para os bebês menores, estimula o aprendizado de expressões: você pode mostrar a carta e fazer cara de feliz, triste, preocupado ou com medo. Desde pequenas as crianças já sabem quando estamos felizes e quando não aprovamos algo, mas muitas vezes elas não sabem nomear os sentimentos. Esse é um dos motivos pelos quais surgem comportamentos como choros ou as “birras”. Se começamos a falar sobre sentimentos desde cedo – e a nomeá-los – os comportamentos inadequados diminuem bastante com o tempo.

Os palitinhos também são ótimos para contar histórias. Você conta e vai ilustrando com as expressões. Para as crianças maiores, você pode pedir para que elas sinalizem com a carta como elas estão se sentindo naquele dia. É bem interessante!

Como fazer:

Você irá precisar de palitinhos de sorvete, sulfite, fita adesiva e canetinha. Basta desenhar diversas expressões no papel, recortar e colar nos palitos. Para evitar que o papel amasse ou rasgue, passe fita adesiva em todo o círculo (ou plastifique). Outra opção também é imprimir da internet fotos reais de crianças com várias expressões. Fica bem legal.

Quando começar? Desde os 2 meses, com supervisão.

Montagem com duas fotos. Em uma foto, vemos seis palitinhos de sentimentos, com expressões variadas (tristeza, raiva, alegria, espanto). Na segunda, vemos uma criança interagindo com eles.
Fale com seu filho sobre sentimentos, como expressá-los e como reagir à eles.

ATIVIDADE 9: Bolhas de sabão

Essa atividade é uma ótima desculpa para sair de casa, respirar um ar puro e brincar ao ar livre. É muito difícil uma criança (e um adulto, para ser sincera) que não goste de bolhas de sabão. Eu acho uma atividade extremamente relaxante hehe. Além da mudança de ambiente que você poderá proporcionar ao seu filho, também há o estímulo visual (você acompanha com o olhar para onde a bolha vai), a concentração (devemos nos focar para não perdê-la de vista) e a própria atividade física (correr ou engatinhar atrás da bolha para estourá-la). Para crianças que já conseguem fazer a bolha (convenhamos, não é tão fácil assim fazer uma bolha perfeita), os especialistas afirmam que ajuda até no desenvolvimento da linguagem, por conta do movimento do sopro.

Como fazer:

Não tem erro: basta comprar em qualquer lojinha de um real um tubete com sabão e sair por aí fazendo bolhas. Há também máquinas para isso, mas nós não precisamos de tudo isso para entreter o nosso filho pequeno, né! Eu já tentei fazer em casa com detergente, mas nunca deu muito certo. Se você já conseguiu fazer a sua própria mistura, por favor, deixe aqui nos comentários.

Quando começar? Para a criança não ser uma mera espectadora da alegria dos pais (tsc tsc), eu recomendo começar quando ela já estiver engatinhando. Sempre com supervisão.

Montagem com duas fotos de uma criança brincando com bolhas de sabão.
As bolhas de sabão estimulam a criança a brincar ao ar livre e a se movimentar.

ATIVIDADE 10: Transferência de materiais

A transferência de materiais é uma atividade muito legal e ótima para o desenvolvimento de habilidades infantis, pois trabalha com a coordenação motora fina (movimento de pinça) e a relação causa e efeito. Em ambos os casos, estimula a concentração e trabalha com conceitos como tentativa/erro e perseverança.

Como fazer?

Super simples de preparar, você precisará apenas de dois potinhos e alguns objetos que a criança possa usar para transferir de um recipiente para o outro. Aqui eu fiz com animaizinhos de madeira de tamanho médio (para evitar possíveis engasgos), mas em crianças maiores pode ser feito com grãos menores (feijão, lentilha, arroz, etc. COM SUPERVISÃO!). Para crianças de 2 anos em diante, a transferência pode ser feita com líquidos, mas isso será um assunto de um próximo post.

Quando começar? A partir dos 10 meses, com supervisão.

Montagem com três imagens de uma criança transferindo animais de madeira de um potinho para outro.
Transferência de materiais: coordenação motora fina, concentração e relação causa e efeito.

ATIVIDADE 11: Caixa misteriosa

Para bebês pequenos a caixa surpresa serve para estimular a coordenação motora e conceitos como “pertencimento”, ou seja, não é porque a bolinha entrou no buraco que ela deixou de existir. É a mesma lógica do “achou”, brincadeira importantíssima para bebês de 8 meses à um ano e meio, que podem sofrer com a ansiedade de separação materna. A caixa também trabalha com o conceito de ação e reação e pode servir para esconder outros objetos, sendo que a criança tentará tirá-los da caixa.

Para crianças maiores, a diversão pode ser outra. Experimente colocar diversas coisas dentro da caixa e pedir para seu filho fechar os olhos e tentar descobrir apenas com o tato qual objeto é. Diversão na certa né!

Como fazer?

Você precisará de uma caixa de papelão (pode ser de sapato também), fita adesiva, estilete e objetos diversos. Feche a caixa com fita para que a criança não consiga abri-la. Na parte superior faça um furo que caiba a sua mão, mas que não dê para enxergar todo o conteúdo interno. Se você quiser dar uma incrementada, pode encapar e decorar a caixa com papel. Comece a brincadeira com um ou dois objetos, no máximo. Quando a criança achar o objeto dentro da caixa, você pode dizer “olhe, achou a bolinha! Ela estava aí o tempo todo!”.

Quando começar? A partir dos 8 meses, com supervisão.

Montagem com duas fotos de uma criança brincando com uma caixa com um buraco dentro.
A caixa surpresa é ótima para trabalhar a ansiedade de separação infantil que ocorre por volta dos 8 meses.

ATIVIDADE 12: garrafas sensoriais

As garrafas sensoriais permitem que a criança desenvolva a coordenação motora grossa, concentração, percepção visual, sonora e tátil. Além disso , ensina conceitos como “leve”, “pesado”, “cheio”, “vazio”, “muito” e “pouco”.

Como fazer?

Separe algumas garrafas pet pequenas (aquelas de água são ideais, mas evite as muito molengas). Encha cada uma delas com objetos diferentes, levando em consideração pesos diferentes, sons, cores, e por ai vai. No meu exemplo, eu fiz uma com rolhas de vinho (pode ser com tampinhas de cerveja ou clips), outra com pompons (pode ser papel picado, bolinhas de borracha, etc.) e outra com uma mistura de glitter, lantejoulas e pequenas missangas. Mas atenção ⚠️: certifique-se que as garrafas estejam muito bem lacradas (com cola ou fita adesiva), para evitar acidentes e/ou engasgos.

Quando começar? Assim que a criança já conseguir sentar com firmeza, com supervisão.

Montagem com quatro imagens de uma criança brincando com garrafas sensoriais.
As garrafas sensoriais estimulam a concentração, coordenação motora grossa e percepção visual das crianças.

ATIVIDADE 13: Macarrão sensorial

Essa certamente é a atividade mais saborosa deste post! O macarrão sensorial estimula a exploração de diferentes texturas (o macarrão depois de coado é liso, escorregadio e após um tempo, com a ação do amido, ele se torna grudento, firme, duro). Essa brincadeira também trabalha com a coordenação motora fina, pois a criança tem que se concentrar para pegar um fio da massa. 

Como fazer?

Para evitar o desperdício, eu indico utilizar um macarrão que esteja perto do vencimento, ou vencido de pouquinho, que você iria jogar fora. Pode ser integral ou branco. Eu achei mais legal ser do tipo espaguete, mas pode ser penne, parafuro, etc. Você vai precisar apenas ferver o macarrão, sem óleo e sem sal. Se você quiser que ele não mude a textura durante a brincadeira, depois de cozido, dê um banho nele com água bem gelada. Mas a mudança do aspecto escorregadio para grudento pode ser uma experiência sensorial bem rica para seu filho. Ah, e não precisa ser um pacote inteiro como eu fiz; um pouquinho já é o suficiente para vocês se divertirem muito.

Você pode usar corantes alimentícios para chamar mais a atenção da criança e utensílios para que ela possa colocar e tirar os fios. E, claro, não tem problema se o bebê comer um pouquinho!

Quando começar? A partir dos 8 meses, com supervisão.

Montagem com quatro fotos mostrando uma criança se divertindo com a textura de um macarrão cozido.
Macarrão sensorial: delicioso e ótimo para trabalhar texturas.

ATIVIDADE 14: Caixa com palitos

O segredo desta atividade é: paciência! Talvez seu filho não entenda ou não consiga fazer a atividade logo de cara (aqui demoramos 4 dias para ela começar a entender e a se interessar). No entanto, vale a pena insistir, pois essa atividade incentiva a coordenação motora fina, a concentração e o conceito de permanência (lembra da ansiedade de separação que eu falei ali em cima?).

Como fazer?

Você vai precisar aqui de uma caixinha de leite que tenha tampinha em cima e palitos de sorvete (podem ser lápis sem ponta também ou canudinhos). Eu encapei a caixa, mas já adianto que isso é completamente desnecessário. Na parte inferior da caixa, abra um quadrado por onde os palitinhos vão sair e retire a tampa da caixa (você não irá precisar dela). Estimule a criança a colocar o palito pelo buraco onde saia o leite e a pegar pelo quadrado que você abriu. Depois que eles pegam o jeitinho, é uma ótima fonte de entretenimento.

Quando começar? A partir dos 11 meses, com supervisão.

Montagem com quatro fotos mostrando uma criança brincando com uma caixa de leite e palitos. Desenvolvimento infantil.
Além de estar reciclando uma caixa de leite, você estará contribuindo para a coordenação motora fina do seu filho.

ATIVIDADE 15: Janelinhas supresas

Essa atividade é uma que tem que ser preparada com antecedência. Sabe as tampas dos lencinhos umedecidos? Guarde-as! Você verá que atividade legal pode ser feita através delas!

Como fazer?

É bem simples fazer essa atividade e você vai precisar de: cartolina, tesoura, cola branca, figuras (aqui foram de animais reais), cola quente, fita adesiva (para fixar a cartolina no chão) e, claro, essas tampinhas que vêm nos lenços umedecidos, por onde o lencinho sai. Eu colei as figuras dos animais na cartolina e transformei as tampas dos lencinhos em “janelas” que ela pode abrir e descobrir o animal.

Essa atividade proporciona diversas brincadeiras. Você pode imitar os sons dos animais (ou dos meios de transporte, ou dos heróis, etc), cantar músicas relacionadas ao bichinho, falar sobre cores e mais para frente até arriscar um jogo da memória. Que tal?

Quando começar? A partir dos 8 meses, com supervisão.

Montagem com quatro fotos de uma criança brincando com tampas de lenço umedecido. Desenvolvimento infantil.
E você jogando fora as embalagens dos lenços umedecidos, hein!

Gostou? Tem mais!

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E quando o casal sofre com problemas de fertilidade?

Ter filhos faz parte dos sonhos de muitas famílias. Muitos casais se planejam para receber seus filhos e, de repente, se deparam com um quadro de infertilidade. Como seguir adiante quando seu sonho parece tão distante?

Fonte: Unsplash

Ter filhos faz parte dos sonhos da maioria dos casais. Muitos se imaginam estáveis financeiramente com filhos alegres pulando por toda parte, e se planejam anos a fio para isso. E então, depois de muitas tentativas frustradas, vem o diagnóstico: problemas com fertilidade. Como seguir adiante quando tudo que queremos parece estar tão distante? Como continuar acreditando e tendo esperanças quando seu sonho parece tão difícil de se concretizar?

Se você está passando por esse problema, saiba que você não está sozinho (a): de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), estima-se que 15% da população mundial em idade fértil sofre de problemas de fertilidade. Algumas causas para a infertilidade ainda estão sendo estudadas pela medicina, mas algumas associações já foram feitas, como alterações hormonais, idade, sobrepeso, endometriose, síndrome dos ovários policísticos (SOP), alterações espermáticas nos homens, alterações genéticas, alterações imunológicas e a infertilidade sem causa aparente.

Independente da causa, a infertilidade é algo que causa uma grande tristeza para aqueles que estão passando por ela, com momentos de grande euforia e esperança e outros de grande desapontamento e desesperança. Muitas vezes, essa dor é intensificada pelos parentes e amigos que, sem suspeitar dos problemas pelos quais o casal está passando, fazem piadinhas e brincadeiras de quando finalmente o herdeiro vai aparecer.

Acho que é por essas e outras razões e eu nunca gostei desse tipo de pergunta. E raramente a faço para alguém. Primeiro porque é algo extremamente íntimo, que só diz respeito ao casal. E segundo, porque nunca sei se, de repente, esse casal está tentando ou não.

Síndrome dos Ovários Policísticos – A minha história

Com 13 anos de idade eu fui diagnosticada com o famoso SOP. Uma das características principais do SOP é que a mulher não ovula com a frequência correta. Na verdade, em alguns meses ela nem chega a ovular. Por isso, quem tem esse problema, apresenta uma menstruação completamente desregulada: você nunca sabe quando vai menstruar e, consequentemente, nunca sabe quando está ovulando.

Embora a SOP não cause infertilidade em si, ela dificulta bastante uma gravidez. É por isso que ao longo do meu casamento eu e o meu marido passamos por altos e baixos nesse assunto. Primeiro porque, desde adolescente, eu ouvia dos médicos o quanto seria difícil eu engravidar naturalmente (sem um procedimento de indução de ovulação, por exemplo). Segundo porque, talvez por ter ouvido tanto sobre as dificuldades de engravidar, eu já tinha colocado na minha cabeça que eu não ia conseguir. E terceiro porque, por eu não acreditar em mim e no meu corpo, muitas vezes eu me fechava e não queria nem discutir sobre isso.

Era um assunto tabu em casa. Eu não queria falar sobre isso com ninguém. Me sentia mal comigo mesma (afinal, era eu quem tinha o problema) e muitas vezes me tranquei no banheiro e chorei por horas a fio. Eu negava para mim mesma, mas a verdade é que eu sempre quis ser mãe. Era meu sonho desde criança. Eu nunca soube qual profissão eu queria ser, mas eu sempre soube que eu queria ter um filho. E eu sempre fui loucamente apaixonada por bebês.

No ano de 2013, durante uma viagem para a Europa, eu e meu marido resolvemos tentar. Eu me preparei toda, fiz os exames necessários, tomei o tal do ácido fólico e lá fomos nós, ambos super esperançosos. Eu estava muito bem na minha carreira, estava casada há dois anos e era uma jovem cheia de energia e saúde. Tentamos por um, dois, três, quatro…. doze meses. E nada. Quanta ansiedade! A cada menstruação, lá se ia um pouco da minha esperança. Depois de um ano de tentativas completamente fracassadas, eu voltei para a pílula. Não tinha jeito, eu pensava, eu nunca vou conseguir mesmo.

Foram épocas bem difíceis para mim. Aconteceram n coisas nesse período: eu perdi meu emprego, minha cachorrinha morreu, tive um problema familiar e desenvolvi stress pós-traumático em seguida. Hoje eu vejo que uma gravidez naquele momento teria sido completamente fora do momento. Mas na hora, você não enxerga isso.

Bom, para finalizar, em 2016 eu pedi à minha médica para refazermos os exames, porque eu queria saber como estava meus ovários. Mas para isso, eu precisaria parar a pílula. Parei em Julho de 2016 e em Agosto de 2016 eu estava grávida da minha doce e amada filha. Assim, sem tratamento nenhum, sem indução, sem ansiedade, sem nada.

O que ficou de tudo isso é que, hoje, eu sei o que é passar pela infertilidade. Mesmo tendo sido um ano apenas, eu consigo compreender o quanto isso é difícil para os casais. É como acordar de um sonho lindo, é como ver escapar pelos seus dedos a sua maior realização.

O que fazer (por mais difícil que seja) quando se está passando por isso?

Podem parecer conselhos banais ou simples demais, mas eles fazem toda a diferença.

Fale sobre isso com alguém

Por mais difícil que seja tocar nesse assunto, fale com alguém sobre isso. Desabafe, abra o seu coração, chore se for preciso, xingue um pouco se isso te fizer se sentir melhor. Não se feche em uma bolha como eu fiz um dia. Se você não se sente a vontade para conversar com um parente, converse com uma amiga. Mas fale! Guardar só para você só vai aumentar sua tristeza e decepção.

Se permita sentir tristeza

No ano em que nós tentamos engravidar eu me sentia muito triste quando alguém me contava que estava esperando um bebê. É claro que eu ficava muito feliz pela pessoa e pela criança que estava por vir. A tristeza era comigo mesma (“porque só eu não consigo?”), e muitas vezes eu me sentia culpada por estar me sentindo assim. Mas isso é normal. Descobri ao longo dos anos que validar os nossos sentimentos é importante para conseguirmos lidar com eles. Portanto, se permita sentir tristeza de vez em quando, afinal, você é humano.

Seja parceiro (a) do seu cônjuge

Não importa se a causa da infertilidade esteja em você. Não conseguir engravidar é um problema do casal e nessas horas o que mais vocês precisam é se unir para um levantar o outro nos momentos de tristeza. Juntos vocês são mais fortes. Conversem a respeito, discutam sobre a possibilidade de procurar um tratamento médico, sejam parceiros um do outro. Vocês estão no mesmo barco, então se unam.

Nunca, jamais, culpe o outro pela infertilidade

Ninguém precisa desse tipo de cobrança, até porque, além de ser extremamente cruel, não resolve o problema. Nessas horas, a relação precisa se estreitar e não virar um campo de guerra. Por mais que vocês tenham um dia uma briga homérica, lembre-se que ninguém quer ter um problema, ninguém fica feliz com um SOP, ou uma endometriose, ou espermatozoides lentos, por exemplo. Ninguém escolhe por isso.

Busque ajuda, se você sentir necessidade

Buscar ajuda profissional, como uma terapia ou uma terapia de casais, pode ajudar muito a passar por momentos como esse. Aprender a lidar com a ansiedade, com as frustrações e com os desapontamentos é importante para você manter a sua saúde mental, tão importante quando alguém quer ter um bebê. Aprender a ser mais resiliente também te torna mais forte e mais seguro não só para passar por esse problema, mas por outros que fazem parte da vida.

Busque um médico em quem você confia

Ao longo de um problema de infertilidade, milhares de tratamentos, exames e procedimentos são requisitados. Tenha ao seu lado um médico que te passe confiança e que seja uma pessoa empática com o seu problema. É importante que você possa esclarecer todas as suas dúvidas, que ele te explique como os procedimentos irão ocorrer, quais as chances reais de darem certo, qual o custo exato de tudo isso. Um profissional competente nesse momento é crucial e faz toda a diferença.

Não se foque apenas nos seus problemas

Já vi conhecidas que deixaram de ter uma vida normal e uma relação saudável com seus parceiros porque não tiravam esse problema da cabeça nenhum segundo do dia. A ansiedade já é algo que atrapalha muito quando você quer engravidar, e pensar nisso o dia todo pode te trazer verdadeiros problemas, tanto para a sua saúde, quanto para o seu casamento. Portanto, por mais difícil que possa parecer, se foque em outras coisas: seu trabalho, seu hobby, seus amigos, você mesmo. Enfim, ocupe sua cabeça de alguma maneira, afinal “cabeça vazia, oficina do dia…”.

Não se culpe

Não se sinta menos mulher ou menos homem porque você está passando por isso. Existem situações que nós simplesmente não temos controle. O que cabe a nós é fazermos o que está ao nosso alcance. Aquiete o seu coração, permita-se se sentir triste de vez em quando, mas quando a tristeza passar, erga a cabeça e siga em frente!

Não se compare com os outros

A comparação é a maior inimiga da felicidade. As vezes, aquela família com 5 filhos está passando por outros problemas graves que você nem imagina.

Não perca o melhor de você

Não é porque você está passando por um problema que você deve descontar isso nos outros e se tornar um limão azedo. Tinham dias em que eu não queria conversar com ninguém, e isso é ok. O que não é ok é se virar contra o mundo e extravasar sua frustração nas outras pessoas. Não perca o que você tem de melhor para a dor.

Você está no século XXI

Lembre-se que nós temos uma medicina 1000 vezes mais avançada que os nossos avós. Embora o problema da infertilidade ainda exista, também existem dezenas de formas de driblá-la. Algumas mais caras e outras mais baratas, algumas mais invasivas e outras menos. O que importa é que muitos e muitos casais realizam o sonho de terem um (ou mais) bebê graças às tecnologias médicas. Portanto, pesquise, se informe, se planeje e corra atrás de um especialista de confiança.

Leia sobre os tratamentos alternativos

Lembro que, antes de engravidar, eu fiz um tratamento de acupuntura (que não tinha o foco de me fazer ovular). Se ajudou eu não sei, mas já está comprovado cientificamente que a acupuntura apresenta efeitos benéficos na infertilidade [fonte]. Além de reduzir a ansiedade, ela tem ação sobre a ovulação, podendo melhorar a qualidade dos óvulos, e sobre a implantação do embrião, pelo aumento da vascularização do endométrio.

“Não gosto desse tipo de pergunta”

Pode parecer meio ríspido responder isso quando alguém lhe pergunta porque você ainda não tem filhos ou algo do tipo. Mas mais ríspido ainda é fazer esse tipo de pergunta. Se isso te incomoda, deixe a pessoa saber que esse assunto não é bem vindo. Mesmo eu tendo uma filha, eu detesto quando alguém me pergunta quando eu vou ter o segundo. Poxa, mesmo se eu estiver me planejando para ter mais um bebê daqui um ano, eu não vou sair por aí contando. Isso é meu, eu sou super discreta. Portanto, se você sente que alguém está invadindo a sua privacidade, fale isso com jeitinho, mas fale.

Recorra à sua fé

E aqui eu nem estou falando de religião em si. É claro que se você frequenta uma determinada igreja, é super válido pedir uma oração. Se você de repente é espírita, vale a pena passar por um tratamento espiritual, e assim vai. Todos nós acreditamos em algo, mesmo que seja em uma força superior ou na força do universo. Recorra ao que você acredita, com toda a sua fé. Isso nos acalenta, esquenta nosso coração e dá o conforto que nossa alma precisa.

Busque por pessoas que passaram por isso e tiveram sucesso

Quando eu conheço alguém que está passando por esta fase, eu sempre recomendo o canal da Flávia Calina. Eu acompanho a Flávia há uns bons anos. Ela é uma mulher muito doce, que faz um trabalho muito lindo no Youtube. Hoje ela tem três filhos, mas ela e o marido passaram 7 anos lutando contra a infertilidade. Ela fez muitos vídeos no canal dela falando sobre o que eles sentiam, sobre a FIV que fizeram (os três filhos dela existem graças a FIV), sobre infertilidade masculina e por aí vai. Além da Flávia, procure por pessoas que já passaram por isso com sucesso: isso ajuda a manter a esperança e a seguir firme no seu propósito. (Olha o meu exemplo ali em cima: mesmo com SOP, eu consegui!).


É claro que este post aborda de forma bem ampla um tema tão complexo. Não existe uma forma de fazer um único post completo sobre esse assunto, já que ele aborda muitas peculiaridades. Vamos voltar a falar disso aqui no Canto da Isa, mas hoje eu só queria te dizer que você não está sozinho nessa. Que muitas coisas estão sendo pesquisadas para realizar o sonho da maternidade/paternidade. Que, por mais difícil que esse assunto seja, desabafe com alguém sobre ele. E não desista, se é isso que te move e que você realmente deseja, não desista!

Um abraço, com carinho.

O que falam os livros: as telas e o desenvolvimento infantil

E aí? O contato das crianças com as telas é saudável? Existe um número máximo de horas que nossos filhos podem ficar conectados? Quando apresentar a tecnologia à eles? Como protegê-los no mundo virtual?

Fonte: Unsplash

Outro dia fiz uma pesquisa nos stories do meu Instagram (canto_da_isa_oficial) perguntando aos pais/avós/cuidadores se as suas crianças tinham acesso às telas (quando eu digo telas, eu quero dizer tablet, computador, smartphones, videogames, TV e aparelhos digitais em geral). 100% dos meus respondentes disseram que sim.

É quase impossível nos dias atuais privarmos nossos filhos das telas. Quase tudo o que fazemos está relacionado à elas: nossos trabalhos, nossos contatos com familiares e amigos, nossos hobbies e por aí vai. Mas, o contato das crianças com as telas é saudável? Existe um número máximo de horas que nossos filhos podem ficar conectados? Quando apresentar a tecnologia à eles? Como protegê-los no mundo virtual?

Para responder essas e outras perguntas, eu irei apresentar um resumão bem simplificado do livro “Como criar filhos na era digital”, da psicóloga infantil britânica Dra. Elizabeth Kilbey. Embora o livro fale sobre filhos, é claro que o assunto é importante também para tios, padrinhos, cuidadores, professores, ou qualquer pessoa que tenha contato com alguma criança.

O efeito do tempo de tela no desenvolvimento infantil

No final de 2016, relatórios começaram a apontar que a internet substituiu a TV pela primeira vez na história como o entretenimento mais popular entre crianças britânicas. Seguindo esses mesmos relatórios, pesquisas apontam que 47% dos pais ingleses temem que seus filhos estejam conectados “demais”. Para refinar o quadro, somam-se à isso a falta de orientações governamentais oficiais (tanto no Reino Unido quanto no Brasil) sobre como controlar o tempo de tela. E, por fim, para fechar com chave de ouro: somos uma das primeiras gerações a educarem filhos na era digital. Então, somos, praticamente, cobaias do que fazer ou não fazer com nossos filhos e seus aparelhos, sem o apoio e a experiência de gerações anteriores.

Estamos cansados de ver frases do tipo “o excesso de tela para crianças pode causar danos cerebrais a longo prazo e doenças mentais em crianças”. Esses estudos estão certos. Porém, proibir o uso de tecnologia pelas crianças é uma saída eficaz? Pessoalmente, eu não acredito. Elizabeth também não. Não temos mais a opção de embarcarmos ou não no mundo digital; a partir do momento em que já estamos no barco, o que nos sobra é sabermos conduzi-lo da melhor forma possível. E por um caminho sem tempestades, de preferência.

Nesse sentido, como as telas afetam as crianças atualmente?

Problemas físicos

Crianças em estado latente (0 aos 12 anos) que permanecem durante muito tempo em uma tela, estão diminuindo automaticamente a quantidade de tempo destinada à atividades como brincar ao ar livre, correr, pular, desenhar, pintar, subir e descer escadas ou árvores, etc. Essa falta de atividade física causa diversos prejuízos nas habilidades motoras das crianças: na marcha ou caminhada, na coordenação motora grossa e na agilidade. Além disso, ficar olhando para uma tela, com o pescoço abaixado e sentado de qualquer jeito, pode trazer sérios problemas posturais, incluindo a dificuldade de sentar porque seu core (músculos do abdômen) não as mantém eretas. Além disso, problemas como tendinites, dores nos dedos, pulsos e tendões, além de problemas oculares também podem ocorrer (e não são raros).

Alterações no modo de brincar

No princípio da latência, normalmente até uns 3 anos de idade, as crianças são bastante egocêntricas. O que isso significa em relação ao brincar? Que elas podem estar brincando ao lado de muitas outras crianças, mas nem sempre há interação entre elas. Isso ocorre porque crianças dessa faixa etária ainda estão aprendendo sobre relacionamentos sociais e sobre conceitos como partilhar, dividir e negociar. Quando uma criança fica muito tempo em telas ela deixa de aprender como brincar e se relacionar com outras pessoas. Além disso, a imaginação e a criação de coisas e brincadeiras podem ficar bastante comprometidas. Por mais que nós achemos que construir casas em jogos como Minecraft seja criativo, nada substitui o brincar real, no qual a criança sente as texturas, sente o aroma, faz uma caixa de papelão virar um carrinho, etc. O brincar de verdade, e não em uma tela, é muito mais concreto e trabalha com muitos outros conceitos do que aqueles aprendidos em uma tela.

Foco e concentração

A internet tem um ritmo muito mais veloz que a vida real. Além disso, ela nos impede de sentirmos emoções simples e necessárias como o tédio. As coisas acontecem rápido, você está num link e daqui há segundos está em outro, e em outro, e em outro. Pulamos de um aplicativo para outro em um clique e respondemos dezenas de mensagens em poucos minutos. Com isso, nossa capacidade de foco e atenção tem diminuído muito com o tempo. Nossa impaciência também: se um site demora mais de três segundos para carregar, a chance de o fecharmos ou de abrirmos outro é muito grande. Nossas notícias estão condensadas a 140 caracteres no Twitter, não podemos perder tempo com grandes textos.

O problema dessa velocidade para cérebros em desenvolvimento é que as crianças se acostumam com esse tempo acelerado. Elas se habituam com a gratificação e a recompensa instantâneas (você joga dez minutos de um jogo e já ganha uma medalha; posta uma foto e já ganha uns likes, e assim vai). Embora estejam se tornando ótimas em serem multitarefas (fazem muitas coisas ao mesmo tempo), estão ficando cada vez mais dispersas e desconcentradas. Isso tem sido um desafio para o aprendizado em salas de aula. Aprender um assunto requer tempo, dedicação, tentativas e erros, e nossos filhos não estão conseguindo administrar isso com paciência.

Aprendizado e educação

Muito cuidado com os jogos e aplicativos ditos educacionais. Receber informações de uma tela é receber conhecimento passivamente. E tudo que é feito de modo passivo não é apreendido e logo é esquecido. As telas podem sim ajudar as crianças nos estudos (eles podem pesquisar sobre um tema na internet), mas não faça disso apenas a única fonte de informação, recreação e aprendizado do seu filho. Vocês devem se lembrar de como é gostoso descobrir coisas novas, de como é prazeroso ter um insight sobre algo, né! Uma tela não proporciona isso.

Sono e hora de dormir

Lembra da velocidade que eu comentei ali em cima? Como uma criança vai pegar facilmente no sono se ela está a mil por hora, no ritmo do seu aparelho digital? Não deixe seu filho ficar nas telas antes da hora de dormir. Ao invés disso, aproveite essa hora para acalmar os ânimos e faça desse momento uma ótima chance de vocês interagirem, lendo um livro, fazendo uma oração ou conversando sobre o dia de cada um.

Problemas sociais

Essa é uma das consequências mais trágicas quando falamos de telas durante o desenvolvimento infantil. As crianças, mais do que adolescentes e adultos, necessitam de toque, de atenção, de conversas olho no olho, de interação social. Como fazemos isso com nossas crianças se elas – ou, o que é pior, se NÓS – não deixamos de olhar por um minuto para um aparelhinho em nossas mãos?

Como ensinaremos sobre relacionamentos, regras de convivência, vínculo, amizades se elas estão sempre super concentradas em seus tablets? Como apresentaremos o mundo à elas se elas não estão enxergando o que está acontecendo ao redor de tão distraídas em seus celulares? Já vi com meus próprios olhos uma criança passeando em seu carrinho de bebê no zoológico e enquanto era empurrada pelos pais ela estava assistindo um desenho sobre…. bichos! Que sentido há nisso? Que lógica? Como ensinar emoções e partir para a educação emocional se estamos cegos, surdos e mudos em nossos mundinhos?

Ok, acho que agora a gente começou a perceber que o problema não é tão simples assim. Mas se estamos nessa gangorra chamada tempo de tela x desenvolvimento infantil, o que fazer? Será que a tecnologia só traz prejuízos? Vamos além!

Meu filho pode possuir um aparelho?

Devo comprar um tablet para o meu filho? Qual é a idade certa para comprar um aparelho para a minha criança? Eu sinto lhe dizer que não existe uma regra clara e específica para isso. A resposta é: DEPENDE.

Se você resolver comprar um aparelho eletrônico para o seu filho, certifique-se de apresentar à ele algumas regras, afinal o adulto é você e é o adulto que deve sempre direcionar a criança. Caso você não tenha segurança para lidar com regras em relação à isso, talvez seja hora de esperar um tempo. Porém, algumas dicas podem nos ajudar:

  • Lembre seu filho que embora o celular/tablet/etc seja dele, quem tem o controle sobre o aparelho é você;
  • Estipule um local para as crianças usarem seus aparelhos, de preferência onde a família fica mais;
  • Nunca deixe seu filho usar o celular sem supervisão, muito menos sozinho dentro de um quarto (vou explicar melhor depois);
  • Decida os períodos em que a criança poderá ter acesso às telas. Elas poderão ficar com o aparelho durante o jantar? Quando e em quais ocasiões elas poderão ficar “conectadas”? Depois da escola? Antes?
  • Decida por quanto tempo elas poderão usar as telas por dia e lembrem-se que crianças pequenas não possuem autorregulação, ou seja, se você deixá-las ficar no tablet durante o dia todo, elas ficarão no tablet o dia todo;
  • Evite o hiperfoco excessivo; estimule outras atividades com os seus filhos que não seja só tela; saiam para caminhar, leiam livros, brinquem juntos;
  • Tenha controle sobre o conteúdo que elas acessam; é interessante assistir os desenhos com eles (ou antes deles até), utilizar aplicativos que tenham como foco as crianças pequenas (por exemplo, prefira o Youtube Kids ao Youtube), saiba o que seu filho vê na tela;
  • Seja coerente em relação às regras.
  • Respeite as regras também!

Quanto é um tempo de tela seguro?

Quanto tempo é demais? Qual a quantidade segura de tempo que meus filhos podem passar nas telas?

Alguns países como Taiwan cobram uma multa aos pais (em torno de 4400 reais) se esses permitirem que seus filhos passem “tempo demais” nas telas. Mas, infelizmente, eles não dizem qual é a quantidade de horas que se enquadram no “demais”.

Elizabeth (a autora do livro que estou resumindo) afirma que é muito difícil criar um sistema de “limite seguro para todos”, uma vez que cada criança e como ela reage ao tempo de tela é diferente. Como recomendação geral, ela considera que crianças de 4 a 7 anos não devem ter mais de 60 a 90 minutos de tela por dia. Já crianças de 8 a 12, não devem ter mais de 90 a 120 minutos de tela por dia. Isso não inclui TV. Ela também fala que o ideal é dividir o tempo máximo de tela por dia em porções de meia hora cada, se for possível.

Bom, quem tem filhos menores de 4 anos deve ter percebido que ela não fala sobre os 0 aos 3 anos, né? Como esse é o meu caso também, eu vou falar um pouco sobre como lido com isso na minha casa e com a minha família. Até 1 ano de idade, o máximo que Sofia interagia era com a TV durante pouquíssimas horas por dia. Na verdade, ela assistia o que eu ou o meu marido assistíamos (claro que programas light né gente! E isso não incluía jornais, filmes violentos, etc). A partir do primeiro ano, ela começou a ter acesso ao tablet dela, mas sempre com muita supervisão e poucas vezes. Hoje, com dois anos e alguns dias, ela tem acesso ao tablet durante os fins de semana, o que dá mais ou menos, uma hora no sábado e uma hora no domingo (eu divido esses 60 minutos em porções de meia hora mais ou menos durante o dia). Em relação a TV, nós assistimos filminhos com ela durante os fins de semana. Durante a semana, a TV permanece desligada e o tablet guardado. Também tento não usar o meu celular quando estou ao lado dela.

Na dúvida, é melhor pecar por precaução. Como diz a minha avó “melhor prevenir do que remediar”.

A importância de deixar as crianças se entediarem

Vocês que tem mais ou menos a mesma idade que eu devem se lembrar de algo parecido. Minha mãe “adorava” ir ao banco comigo. Mas ao contrário de hoje em dia, as filas dos bancos antigamente eram i-m-e-n-s-a-s. Dona Márcia tinha conta no banco mais movimentado da cidade e escolhia os dias mais cheios (na minha visão de criança). Eu não tinha tablet nem celular para me ocupar naquelas tristes horas. Então o que eu sentia? Tédio, muiiiiittttoooo téééééééddddiiiooo. E então o que eu fazia? Procurava algo para me entreter.

A capacidade de se auto-ocupar é uma habilidade muito oimportante para as crianças (obrigada, mãe!) de idade latente aprender. Desde então, vivemos em uma época onde os pais estão em cima de seus filhos o tempo todo para entretê-los (são chamados de pais helicópteros). E qual o modo mais fácil de fazer isso? Dar um aparelho para eles. Por isso é tão comum vermos crianças com celulares em filas de supermercado ou no percurso da escola para casa (mesmo que o trajeto leve 10 minutos).

Porém, as crianças precisam de tédio! Porque é através dele que elas vão desenvolver habilidades de resolução de problemas (curar o próprio tédio), criatividade, brincadeira e interação-social.

As telas e o vício

Na minha pesquisa nos stories do Intagram eu também perguntei se as pessoas conheciam alguma criança viciada em tempo de tela e monstruosos 77% (algo em torno de 55 pessoas) responderam que SIM!

O vício em internet está sendo reconhecido mundialmente e já existem até espécies de spas especializados em tratar esse tipo de vício. As crianças particularmente são muito vulneráveis a esse tipo de obsessão porque jogos e aplicativos para crianças são projetados para manter as crianças envolvidas e hiperfocadas. Por isso, eles são altamente estimulantes, são movidos por recompensas e fazem com que as crianças desejem passar mais e mais tempo imersas em seus conteúdos.

Como quebrar esse vício? Conecte-se ao seu filho, em primeiro lugar. Se o vício estiver além das suas mãos, retire o aparelho por um tempo e reintroduza posteriormente, levando em consideração um cronograma ou as regras que você criar (dá uma olhadinha nas dicas ali em cima). Enfrente a reação negativa do seu filho; podem acontecer episódios de birra, choros inconsolados e gritos, mas seja firme. Lembre-se: você é o adulto da relação!

Crianças e redes sociais

Você acha que seu filho tem maturidade suficiente para tirar uma selfie, postar em uma rede social e lidar com os comentários das pessoas (alguns maldosos, por sinal)? Por outro lado, você acha que você tem o direito de postar fotos e mais fotos do seu filho nas redes só porque você é mãe/pai dele?

Você sabia que a idade mínima para ter uma conta no Facebook é de 13 anos? E isso não é atoa. As restrições de idade existem por um motivo. Crianças não tem a maturidade para lidar psicologicamente com os problemas gerados pelas redes sociais. Aliás, muitos adultos também não. As redes, apesar de diminuírem distâncias entre as pessoas, trazem dificuldades imensas para as crianças, pois afetam o desenvolvimento da consciência sexual, da imagem corporal, da definição da própria identidade e da individualização. Crianças em idade latente não possuem regulação emocional e resiliência suficiente para lidar com coisas que podem ver ou vivenciar em ambientes on-line que não foram feitos para elas. Além disso, através das redes, elas podem ser vítimas de adultos mal-intencionados, incluindo aqui o abuso psicológico e sexual.

Riscos virtuais e segurança na internet

Essa é a parte mais importante desse post: como proteger nossas crianças num mundo tão vasto quanto a internet.

  • Deixe claro para o seu filho que amigos virtuais não são amigos de verdade (adultos mal intencionados podem se passar por crianças para tirar-lhes informações e cometer crimes contra elas)
  • Converse com seu filho e o instrua a nunca compartilhar informações como número de telefone, e-mail, endereço, nome da escola e sobrenome;
  • Nunca deixe seu filho utilizar aparelhos digitais sem o seu monitoramento, muito menos sozinhos em quartos;
  • Observe qualquer comportamento estranho que seu filho começar a apresentar e, se achar necessário, procure ajuda de um profissional;
  • Observe se o seu filho quer passar muito mais tempo na internet do que antes, ou se não está mais querendo se relacionar com os amigos de antes, ou se se sente ansioso ou nervoso quando usa a internet;
  • Saiba o que é grooming virtual – processo pelo qual alguém prepara uma criança para o abuso sexual – e estude sobre ele;
  • Converse com seu filho sobre bullying virtual e peça para ele lhe procurar sempre que estiver com algo lhe perturbando;
  • Monitore os chats e os bate-papos online do seu filho: você conhece com quem estão conversando? São mesmo crianças do outro lado? A linguagem está sendo ok?
  • Deixe que seu filho interaja em chats apenas com pessoas que ele conhece na vida real;
  • Evite postar fotos dos seus filhos com uniforme escolar;
  • Evite postar fotos dos seus filhos com pouca ou nenhuma roupa (você não sabe quem está do outro lado);
  • Converse com seu filho sobre compartilhamento de fotos inapropriadas e fale a ele sobre as consequências disso;
  • Peça para seu filho lhe avisar sempre que receber uma foto ou mensagem que ele considere suspeita.

Quando o assunto é segurança dos nossos filhos devemos pecar pela precaução. A internet propicia que as pessoas falem e façam coisas horríveis, das quais as crianças não tem a menor maturidade para lidar. Portanto, todo cuidado é pouco!

Desconecte-se!

As crianças aprendem por exemplos. Não adianta você restringir o tempo de tela se você vive com a cara enfiada no seu celular. Desconecte-se, faça um detox virtual. Permita-se sair sem seu celular a tiracolo de vez em quando.

Olhe para o mundo. Aprenda a olhar para a natureza, aprenda a apreciar uma paisagem bonita sem ter que tirar uma foto dela. Saiba que você não será menos querido se não responder ao Whatsapp a todo momento. Permita-se viver sem tecnologia o tempo todo.

De essa chance à você. De essa chance à sua criança!

Nós sabemos como foi um tempo onde os computadores não dominavam a nossa vida. E foi um tempo bom, em que brincávamos mais, caíamos e nos machucávamos e mesmo assim continuávamos brincando. Sabíamos esperar com paciência a música favorita tocar na rádio para gravarmos na fita cassete. Sentíamos tédio, mas interagíamos o tempo todo. Os tempos mudaram, claro. Hoje nossos filhos podem acessar o Spotify e ter a música que quer com um clique. Não há como voltarmos no tempo; temos que aprender a usar a tecnologia a nosso favor e a favor das nossas crianças.

Mas para isso não devemos esquecer que além de um teclado, existe abraço. Além de uma tela, existe um brinquedo esperando para ser usado. Vamos fazer isso por eles!

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O corpo é meu!

Se nós soubéssemos como nossos comentários podem ser desastrosos na vida de alguém, certamente falaríamos menos.

Fonte: Unsplash

Minha filha fez dois anos e durante a sua festinha (caseira e feita por mim) eu notei um comportamento feminino que me fez ficar bastante chateada. Ao chegar com a bandeja de salgados típicos de uma festa infantil (coxinha, bolinha de queijo, croquetes, etc), muitas mulheres olhavam para mim sem graça e diziam “é, eu vou pegar mais um, porque eu estou gordinha mesmo né!”. Não foi uma e nem duas mulheres que tiveram esse comportamento. Foram umas 4 ou 5 ( o que é muito, considerando uma festa pequena e íntima).

Devo dizer que eram 4 ou 5 mulheres importantes para mim. 4 ou 5 mulheres lindas. 4 ou 5 mulheres que eu admiro. 4 ou 5 amigas que eu amo. Poxa, o que está acontecendo conosco?

A minha história e minha trajetória com peso e auto imagem

Quando eu era criança, com uns 8 ou 10 anos, eu era magra. Muito magra! Eu olho as minhas fotos de antigamente e vejo perninhas finas, ossos protuberantes, quadril e cintura pequenos. Eu nunca fui uma criança fofinha, com dobrinhas e com bochecha de comercial de fralda. Minha filha, por sinal, é assim também. Logo que eu menstruei, lá pelos 12 anos, eu tinha um ciclo super irregular. Depois de alguns exames, eu descobri que tinha a Síndrome dos Ovários Policísticos (o famoso SOP). Com uns 16 anos eu passei a ganhar peso assustadoramente, boa parte causado pelo descontrole hormonal. Com 17 anos eu tinha engordado 20kg e pesava 70kg. Isso me deixou com a autoestima no pé (no subsolo, para ser sincera). Eu não tinha roupas que me servissem, me achava feia e evitava piscina, mar e qualquer coisa que mostrasse um pouco do meu corpo. Podia estar um sol de rachar mamona, mas eu estava sempre de calça e, não poucas vezes, de moletom.

Eu já sofri MUITO com peso. Já fiz dietas malucas, já passei fome pra caramba, já fiquei com fraqueza, já tomei laxante para perder peso, já coloquei uma trufa de chocolate na boca e cuspi antes de engolir (que horror!). E embora eu nunca tenha passado por um distúrbio alimentar sério, eu já chorei muito, me descontrolei e me tranquei em casa por dias por causa da minha aparência. Já recusei inúmeros convites para ir para casas com piscina, para praia e parques aquáticos (e quem me conhece sabe da minha paixão por água). Já sofri alguns preconceitos também!

Certa vez ouvi de um médico (crueldade não tem limites para certas pessoas) que se eu não me cuidasse, meu marido arrumaria outra (claro, eu levantei da poltrona e fui embora do consultório sem responder). Também já me cogitaram fazer uma bariátrica e isso me feriu muito na época.

De tudo que eu já passei, senti e ouvi, é como se:

  • O amor dentro de um casamento se restringisse ao peso do parceiro e à aparência da parceira;
  • Para ser bonito é preciso ser magro;
  • Para não ser traída, é preciso ser magra;
  • Pessoas acima do peso não são bonitas;
  • Pessoas acima do peso não são amadas.

Quanto à bariátrica, eu nem vou comentar porque foi algo tão insensato (pois eu deveria pesar ao menos uns 30 ou 40kg a mais para isso ser uma opção), que prefiro esquecer.

Gente, esse assunto é GRAVE! Esse assunto tem que ser abordado, tem que ser discutido, tem que aparecer! Estamos tratando a imagem alheia de qualquer jeito, sem um mínimo de cuidado e sem um mínimo de respeito. Estamos invadindo de tal maneira a privacidade das pessoas que estamos nos tornando seres monstruosos.

Estamos educando nossos filhos para apontarem dedos. E estamos ensinando nossas meninas que para ser bonita, é importante se enquadrar no que a sociedade diz, não importa sua genética, sua raça ou sua cultura.

Perdemos a noção da diferença do que é cuidar da nossa saúde e ensinarmos nossos filhos a cuidarem das deles e do que é ser medíocre, cruel e preconceituoso. E isso tem trazido consequências terríveis para as nossas crianças e para os nossos jovens. Cada vez mais vemos jovens sofrendo de transtornos alimentares, incluindo a anorexia e a bulimia.

(Antes de continuar, eu gostaria de dizer que o foco aqui são nas pessoas que sofrem para perder peso e não nas pessoas que sofrem para ganhar peso (que também sofrem com a auto imagem e muitas vezes também enfrentam comentários maldosos e cruéis).

Vamos aos dados!

O tema já foi abordado em diversas revistas e jornais nacionais e nos trazem dados chocantes:

  • Veja de SP [1]: “77% das jovens paulistanas têm propensão a distúrbios alimentares”.
  • Jornal O Tempo [2]: “Taxa de compulsão alimentar no Brasil é o dobro da mundial”.
  • Jornal da UFJF [3]: “De 1 a 5% da população mundial sofre de distúrbios alimentares, como bulimia ou anorexia”.
  • Boletim do Hospital Sírio Libanês [4]: “Culto ao corpo faz crescer casos de transtorno alimentar entre homens”.
  • Jornal Hoje – G1 [5]: “Oito em cada dez adolescentes podem ter distúrbio alimentar”.
  • Revista News [6]: “Transtornos alimentares têm a maior taxa de mortalidade entre as doenças mentais”.
  • Jornal Estadão [7]: “Estimulada pelas redes, obsessão com magreza começa cada vez mais cedo”.
  • Correio Braziliense [8]: “A anorexia e a bulimia já atingem 1% a 5% das mulheres no mundo”.
  • Jornal Hoje em Dia – R7 [9]: “Anorexia causa, em média, uma morte por hora no mundo”.
  • Rádio EBC [10]: “Pacientes com anorexia têm taxa de sobrevida inferior aos de câncer de mama”.

E tudo isso para que?

Já vi mulheres se pesando diariamente, comendo uma folha de alface no almoço e uma no jantar. E isso pra que? A sensação de felicidade ao entrar em uma calça 34 ou 36 é tão grande assim que compensa ser infeliz durante todo o percurso para se chegar ao tão sonhado manequim?

Eu acho incrível mulheres que se aceitam do jeito que são: magras, gordas, altas, baixas, loiras, morenas. Acho o máximo mulheres cheinhas que usam shorts curtos e não estão nem aí para as suas celulites. Acho lindo mulheres magras que comem um chocolate quando querem. Uma coisa é querer emagrecer para ter saúde, outra muito diferente é emagrecer para se sentir aceita.

Se nós soubéssemos como nossos comentários podem ser desastrosos na vida de alguém, certamente falaríamos menos.

Hoje, aos 30 anos, eu consigo me aceitar melhor. Tenho minhas tempestades internas ainda, mas tenho um imenso orgulho do que meu corpo foi capaz de fazer. Ele carregou outra pessoa por nove meses, deu à luz, amamentou. Quer perfeição maior que isso? Pouco importam minhas estrias nos seios, minha barriga saliente (pochetinha, né gente!), meu peito meio caído, minhas celulites nas coxas e bumbum. Ah, tive estrias na barriga também, e tudo bem!

Eu vou comer salada em um almoço, mas também vou comer um chocolate na TPM. Eu não vou tomar refrigerante todo dia, mas eu vou tomar uma Coca-cola geladinha de vez em quando. Eu posso não ter uma barriga definida, mas eu tenho bom-humor. Eu posso não pesar 50kg, mas eu sou uma pessoa legal.

Portanto, não me meça pela minha aparência. Ela é apenas a pontinha de um iceberg. Quem eu sou de verdade está muito além do que você enxerga.

Ah, e hoje, pode me chamar para a piscina!

Recado para as minhas amigas

Minhas amigas, vocês foram a inspiração para este post. Quero que vocês saibam que as amo incondicionalmente, estejam vocês com o corpo que estiverem.

Quero que vocês saibam que vocês não inspiram só as minhas escritas, mas várias partes da minha vida. Vocês são mulheres fortes, batalhadoras, engraçadas, inteligentes e gentis. Isso as fazem serem únicas e especiais para mim.

Lembrem-se que ninguém ama apenas um corpo bonito. Ninguém ama apenas um peito empinado ou um bumbum malhado. O amor é muito mais do que pele, do que peso, do que medidas. Amem-se em primeiro lugar. Amem a mulher que vocês se tornaram: íntegras, empáticas e bem-sucedidas. Cuide da sua saúde, mas faça isso por você, e não para uma sociedade hipócrita e mercenária. Escolham parceiros que as amem dia após dia, tanto no manequim 36 quanto no efeito sanfona. Lembrem-se que no amor não cabem cobranças e humilhações. E saibam apreciar uma coxinha, um bolo ou uma massa sem sentir culpa. Vocês podem não acreditar: mas vocês são MARAVILHOSAS!

Feliz dia das Mãevilhosas!

Andei pensando muito sobre os desafios de ser mãe. Às vezes, o dia é tão cansativo que faço as tarefas no automático, me estresso por qualquer motivo e esqueço de valorizar as pequenas (mas grandes!) coisas dessa função nada glamurosa que é a maternidade.

Me peguei pensando que daqui há alguns anos eu vou poder comer minha comida quente, mas eu não terei mãozinhas babadas querendo meu pedaço de pão. Nem dedinhos sujos melecando minha blusa de molho.

Daqui há uns anos eu conseguirei tomar um banho longo, sozinha e sossegada, mas eu não terei um beijo molhado na bochecha e um monte de marquinha de dedos no vidro do meu box. Nem desenhos pelo azulejo e nem bonecas peladas em mini banheiras.

Eu terei, daqui uns anos, minha cama só para mim e para o meu marido, como antes. Mas se acabarão os sorrisos cheios de alegria e gratidão e o abraço que quase sufoca depois do choro do pesadelo. Se acabarão as perninhas na minha barriga, o corpinho quente grudado em mim e o toque suave de manhã “acóda, mamãe!”.

Minha casa estará toda arrumada novamente. Mas não terei passinhos apressados para lá e para cá, cantando musiquinhas com a voz mais linda e doce desse mundo.

Daqui uns anos eu não serei o mundo de alguém. Eu não serei a pessoa mais importante do universo. Eu nunca mais serei amada com tanta intensidade, com tanta paixão, com tanto encantamento.

Eu posso estar descabelada, mas ela me acha linda mesmo assim.

Eu posso estar irritada, mas é o meu “colinho” que ela pede.

Eu posso estar frustrada, mas ela ainda assim me acha incrível.

Porque eu sou tudo para ela.

T-U-D-O.

Hoje.

Amanhã, não mais.

Tempo, vai mais d e v a g a r.

Eu quero que ela voe. Que seja independente. Que seja dona de si. Que viva experiências. Que conheça pessoas.

Mas hoje não.

Hoje eu quero continuar comendo comida fria, quero continuar acordando no canto da cama, quero tomar banho brigando pelo chuveirinho, quero minha casa de pernas para o ar. Hoje eu quero continuar sendo o mundo dela, enquanto eu sou tudo para quem é tudo para mim.

Hoje eu quero continuar assistindo desenhos e decorando todas as musicas de Frozen. Hoje eu quero continuar sentindo dores na coluna ao ficar horas sentada no chão brincando com mini panelinhas. Hoje eu quero ter meus sapatos fazendo TOC TOC TOC no chão para lá e para cá. Hoje eu quero escovar meus dentes com gosto de tutti frutti. Até quero continuar não tendo nenhuma privacidade no banheiro. Quero ser penteada, mesmo que as vezes sejam arrancados uns tufos do meu cabelo. Quero que escolham a roupa pra mim “exa mamãe, essa”, mesmo que eu saia igual uma palhaça.

Filhos nos fazem mães.

E pouco importa se eles saíram ou não da nossa barriga.

Pouco importa se eles falam inglês, português ou bebezes. Ou tudo junto.

Filhos nos fazem descobrir nossas maiores qualidades e nossos piores defeitos.

Nos fazem termos um medo terrível da morte, mas nos fazem amar e a lutar pela vida.

Por eles, nós mudamos tudo. Passamos a ser mais ecológicas, a dirigirmos mais devagar, a sermos mais precavidas e observadoras. Eles nos privam de varias coisas, é verdade, mas também descortinam um mundo que jamais imaginávamos existir.

Depois que somos mães, nunca mais somos as primeiras. Nunca mais pensamos em nós em primeiro lugar. Podemos estar como zumbis, mas jamais queremos nossa vida de antes. E quando lembramos de antes, cadê a graça de tudo?

Depois que somos mães, descobrimos que somos tudo um pouco. Um pouco médica, um pouco psicóloga, um pouco atriz, um pouco palhaças, um pouco mágicas, um pouco fadas, um pouco equilibristas, um pouco loucas. Descobrimos que quando precisamos viramos verdadeiras leoas pelos nossos filhos. E também pelos filhos de outras mães.

Descobrimos que somos bem semelhante às outras mães, sejam elas brasileiras, japonesas, alemãs, americanas, chinesas. Descobrimos que as vezes somos a mãe do fulano, e não mais a Ciclana. Mas tudo bem!

Quando somos mães viramos seres meio bipolares. Gritamos e rimos quase ao mesmo tempo. Sentimos medo e euforia, cansaço e energia. Somos uma e de repente somos dois. E é tão gostoso tudo isso.

Ser mãe não dá para explicar em um post. Nem em um livro. Talvez, nem em uma vida. Ser mãe é ser de tudo um pouco. Luz, vida, gratidão.

Feliz dia das mães!

Não cobre tanto das outras pessoas

É cobrança de pai para filho, de filho para pai, de esposa para marido, de marido para esposa, de um amigo para outro, da sociedade como um todo. Só de pensar já da até uma preguiça, né? Pare um tempinho para pensar se você está cobrando demais as pessoas a sua volta. Muitas vezes, fazemos isso com a melhor das intenções. Mas ser cobrado é algo terrível e, as vezes, irreversível. Portanto, vamos nos vigiar. Afinal, de cobranças bastam os boletos da vida!

Crédito da Imagem: S. McCutcheon

Vou te contar quatro historinhas (fictícias, ok?).

1- Era uma vez um menininho chamado Thomas. Thomas era muito amado pela sua mãe Rebeca. Mas, apesar de amar tanto o filho (e na cabeça dela, por amá-lo tanto), ela lhe cobrava demais. Por mais que Thomas arrumasse seu quarto, ela sempre encontrava uma gaveta bagunçada. Por mais que ele tomasse seu leite com cuidado, ela sempre lhe chamava a atenção pela gota derramada. Por mais que ele se esforçasse para pintar um desenho bonito, ela sempre lhe apontava os borrões, mesmo os imperceptíveis. Thomas cresceu e se tornou um homem. Mas com ele, cresceu também sentimentos do tipo “por mais que eu faça, eu nunca faço direito”, “eu sou desastrado”, “eu não consigo”.

2- Paula era casada com Adriano há 4 anos. Há um ano eles passaram a ter problemas no casamento porque Adriano fazia cobranças à Paula que ela não podia ou não queria atender. Ele cobrava dela um filho, cobrava dela uma casa sempre arrumada, cobrava dela que ela se vestisse melhor e que tivesse um salário melhor para ajudar nas despesas da casa. Paula começou a se sentir sufocada na relação porque por mais que ela fizesse pelos dois, ela sentia que nunca era o suficiente. Ela já fazia um tratamento para engravidar, arrumava a casa nas poucas horas que não estava trabalhando, já tinha enviado muitos currículos para empregos melhores e não tinha dinheiro para roupas novas. Ela se sentia frustrada ao chegar em casa e passou a evitar o marido. Algum tempo depois eles resolveram se divorciar.

3- Luiza e Bárbara eram amigas de infância. Quando Bárbara se casou e teve um bebê, Luiza sentiu muito a falta da amiga e começou a ligar e a procurar Bárbara com insistência. Por mais que Paula soubesse o quanto a amiga se sentia sozinha, a sua vida tinha mudado completamente e ela se sentia muito triste pela amiga. Luiza mandava mensagens diárias cobrando atenção, pedindo para saírem como nos velhos tempos, mas a vida atual de Bárbara não era mais a mesma. As amigas se sentiam completamente chateadas uma com a outra. Quando Luiza se casou e teve seus filhos ela compreendeu que o que a amiga sentia não era indiferença ou negligência, apenas os programas não tinham mais como serem os mesmos. Elas reataram a amizade.

4- Marina e César estavam separados há 8 anos, mas para César era muito difícil esquecê-la e seguir a sua vida sem a ex-esposa. Com a alto-estima no chão e se sentindo fracassado, ele ligava para ela toda semana, implorando pelo seu amor. Marina o amava como um irmão, como um companheiro e parceiro que ele tinha sido durante muitos anos e essa falta de amor próprio do ex-marido a deixava estarrecida e a afastava ainda mais dele. Ela queria ele feliz, com um novo amor que fosse. Eles já tinham tentado duas vezes reatar o casamento, mas o amor dela por ele não era mais o mesmo. Por mais que ele cobrasse, ela não conseguia amá-lo novamente.

Se relacione com as pessoas sem querer mudá-las

Criar expectativas demais gera angústia e frustração. Você já deve ter ouvido aquele ditado “se você não quer se ferir, não crie expectativas”.

Quando falamos de cobrança emocional estamos falando sobre relacionamentos. Existem diversos tipos de cobranças: de pais para filhos (como da história 1), nos relacionamentos entre casais (como na história 2), no trabalho, nos vínculos de amizade (como na história 3), as cobranças da sociedade, etc. Vamos falar um pouquinho sobre cada uma delas.

Seu filho é seu filho. Seu filho não é você.

As vezes nós erramos justamente quando temos a melhor das intenções. Amamos tanto nossos filhos que criamos expectativas demais sobre eles. Queremos que eles sejam os melhores, que façam tudo certo, que se destaquem; queremos que eles se comportem perfeitamente bem, que sejam mais felizes e mais bem sucedidos que nós mesmos.

É nessa gana por querer tanto o bem de nossas crianças e adolescentes que erramos. Rebeca amava o seu filho. Ela não o repreendia porque achava que ele realmente era uma criança desastrada ou incapaz, mas porque queria que ele prestasse mais atenção ao tomar o leite ou pintar o desenho. Talvez para que não rissem dele na escola; talvez porque um dia ele teria que ensinar seu filho a fazer as coisas direito; talvez porque ela achava que isso era educar uma criança. Por mais bem intencionada que ela fosse, e ela era, isso gerou uma frustração imensa no filho, afetando o adulto que ele se tornou.

Um dos sintomas mais comuns advindos da cobrança emocional com os filhos é a ansiedade. Estima-se que, só no Brasil, 1 em cada 10 crianças sofrem com esse problema [1].

Portanto, é importante não confundirmos disciplina com cobrança. A criança por si só já se sente inclinada a surpreender positivamente os seus pais. Quando ela é milimetricamente avaliada por eles, ela pode entrar em um quadro de auto-vigilância para sempre atingir as expectativas dos genitores, o que não será atingida, configurando um ciclo infinito. Não é difícil de entender porque existem tantos adultos que se cobram dia após dia e sofrem de distúrbios emocionais, como ansiedade e depressão (aliás este assunto foi tratado com mais detalhes aqui).

Nesse sentido, é imprescindível nos vigiar. Por mais que fosse o seu sonho ser um pianista profissional, não cobre perfeição do seu filho nas aulas de piano dele (muito provavelmente esse não é o sonho dele). Por mais que você adore maquiagem, não cobre da sua filha pré-adulta o mesmo estilo que o seu (assim como você se sente feliz de rímel, ela pode se sentir linda com o rosto limpo). Lembre-se que cada um é cada um e até mesmo nossos filhos podem ser completamente diferente de nós mesmos.

Portanto, não foque no comportamento a ser melhorado ou aprimorado, mas naquilo que sua criança/adolescente faz bem. Estimule-o com palavras gentis e carinhosas. Se o desenho não ficou bem pintado hoje, tudo bem. O importante é que ele tentou e se esforçou, e isso tem um mérito imenso. Afinal, você não precisa de um mini-gênio em casa, que sabe muito de tudo. Nem de um Van Gogh mirim, que pinta muitíssimo bem. Nem de um mini Chopin. Muito menos de uma criança com mania de arrumação, né?

O amor não cabe em uma balança

É da natureza humana comparar. Não tem jeito, a gente sempre está olhando para a grama do vizinho e tentando descobrir qual está mais verdinha. Já dizia nossas avós “a comparação é a maior inimiga da felicidade”. Principalmente da conjugal.

Se você fez um jantar romântico para seu marido em um dia de semana, com o cardápio escolhido com antecedência, e isso partiu de você, por que raios você tem que esperar ser surpreendida por ele na semana que vem? Essa ideia de reciprocidade nos relacionamentos é leviana porque, em essência, quando fazemos algo generoso isso por si só bastaria. Mas não é bem assim que funciona. Criamos a expectativa de que tudo que vai tem que voltar. E rápido! E se demorar…. você joga na cara na primeira briguinha boba que tiverem. E cobra, com a cara cheia de razão (sqn!), que só você faz as coisas por ele. Argh!

Um relacionamento amoroso não é como uma balança: dois pesos, duas medidas. O amor sincero é aquele incondicional, lembra?

A cobrança dentro dos relacionamentos talvez seja a gota d’água que apaga a chama da paixão [3]. Isso porque cobrar do outro traz embutida a ideia de que um dos dois tem que mudar. Atenção, respeito, fidelidade e sexo são coisas que não tem porque serem cobradas. Elas estão tão intrínsecas nos relacionamentos que não tem como pensar em um casal sem um se atentar ao outro, sem se respeitarem mutuamente, sem fidelidade e sem sexo. Se você chega ao ponto de ter que pedir para o outro mudar isso, talvez seja porque o relacionamento como um todo tem que ser revisto. Porém, se suas cobranças são pelo jantar não retribuído, aí colega, a mudança tem que ser em você.

Como vimos na historinha 2, do casal Paula e Adriano, existem também as cobranças do dia-a-dia em que um dos dois sufoca o outro tentando moldá-lo. É maldoso cobrar do outro uma casa arrumada, muito menos um filho quando o outro se sente despreparado (ou está passando por um problema de infertilidade, como na história). Não é nosso direito interferir no estilo do nosso companheiro (afinal, você se apaixonou por ele um dia, lembra?) e podemos ser bastante empáticos quando o assunto é emprego e dinheiro. Olhar para o nosso companheiro com carinho, respeito e empatia é tão importante e essencial como regar uma plantinha para que ela não morra.

Amizade tem que ser leve

Já recebi muitas queixas de amizades que sufocam, seja pela cobrança da presença física, seja pela cobrança emocional. Também já me senti assim. Tive uma amiga que, ao não ser respondida imediatamente no Whatsapp, ligava insistentemente no meu celular ou no meu telefone, até me achar. Na maioria das vezes não era algo sério ou emergencial. Me senti tão acuada e pressionada que me afastei. Claro que depois de não me achar por diversas vezes, não somos mais amigas.

A amizade deve ser algo prazeroso, leve, benéfico para ambos. Ao contrário de nossa família, que além do amor nós nos relacionamos por respeito e gratidão, os amigos permanecem ao nosso lado pelo simples afeto que nutrem por nós. Nós não temos dívidas sanguíneas para com eles; nós temos a afinidade, o carinho e a admiração. Sair com os amigos é gostoso, papear até tarde nos dá alegria; dizem que rir numa roda de amigos chega até a ser terapêutico [2]. E é! Somos seres sociais e o contato com outras pessoas é importantíssimo para a nossa vida.

Mas se isso está se tornando um fardo, é hora de repensar se determinada amizade vale realmente a pena. Talvez um dos lados tenha simplesmente mudado a forma de pensar ou agir (graças a Deus nós mudamos com o tempo); nesse caso, não adianta cobranças e mais cobranças.

A sociedade é você!

“A sociedade me cobra que eu seja magra e alta”, você murmura tristemente em um dia. Mas ao olhar aquela atriz que engordou uns quilinhos na gestação, você solta um “aiiii como ela está gordaaaa!”. Ei, menina e menino, tem algo errado aí, tem não?

Não adianta reclamar da insensibilidade, do machismo, do preconceito e dos padrões impostos pela sociedade se você se comporta exatamente como ela. Aliás, VOCÊ É ELA! E são por pessoas com o mesmo pensamento que o seu que continuamos sendo uma sociedade insensível, machista, preconceituosa e cheia de padrões.

Portanto, quando pensar em dizer algo do tipo, PARE! Rompa esse ciclo horrível de cobranças e não faça mais parte dele. Cabe à nós, e apenas à nós, mudarmos.

Não cobre amor

Não existe coisa mais triste do que cobrar pelo amor de alguém. Cobrar o amor de um pai, uma mãe, um filho, um ex companheiro (a), um amigo (a) é algo tão doloroso que NUNCA vai valer a pena.

Amor não é algo que pode ser comprado, julgado ou pedido. Ele simplesmente é. Ele acontece, é espontâneo, é merecedor, é algo que vem lá do fundo da alma, que nasce ou morre quando tem que nascer ou morrer.

O amor não é uma chavinha de on/off que liga e desliga quando você quer (seria bom que fosse, né!). As vezes a gente ama tanto e nem sabe porque; as vezes a gente nem queria, mas acontece de “desamarmos”.

Mas ao contrário do amor pelo outro ou amor do outro por nós, existe um que temos um relativo poder sobre: o amor-próprio. Esse diacho de amor próprio que muitas vezes fica guardado nas gavetinhas do nosso coração; que se esconde sei-lá-onde quando mais precisamos dele. Esse que não deixa a gente se humilhar na frente de um ex-marido ou ex-namorado toda vez que o vemos. Esse que faz a gente erguer a cabeça e seguir em frente, sabe? Esse que fala pra você mesmo: “ei, isso vai passar. Você vai ser feliz de novo. Parte para outra, segue a sua vida e se orgulhe de quem você é. E pare, por favor, de cobrar que tal pessoa te ame”. Esse carinha faz milagres na nossa vida e ele depende só de nós mesmos. Se dê a chance de senti-lo: você verá como ele é poderoso.

Fontes consultadas

[1] SILVA, W. V.; FIGUEIREDO, V. L. M. Ansiedade infantil e instrumentos de avaliação:
uma revisão sistemática. Revista Brasileira de Psiquiatria, v. 27, n. 4, 2005.

[2] CAPELA, R. C. Riso e bom humor que promovem saúde. Revista Simbio-logias, v. 4, n. 6, 2011.

[3] CARDOSO, R.; CARDOSO, C. Casamento blindado😮 seu casamento à prova de divórcio. São Paulo: Thomas Nelson, 2012.

Educação emocional: tudo começa na infância

Validar sentimentos, acolher, respeitar e direcionar são passos essenciais na educação emocional que damos aos nossos filhos. Por mais difícil que alguns dias possam parecer, é nossa função ensinarmos as nossas crianças sobre emoções e como expressá-las de maneira correta. Vem comigo!

Créditos da imagem: Caleb Woods

Expressar e compreender emoções começam na infância

Desde que somos um feto no ventre de nossas mães, já somos capazes de sentir emoções. De acordo com pesquisas [1], o feto é capaz de sentir tudo aquilo que é sentido pela mãe – alegria, tristeza, angústia, raiva, amor, paz, ansiedade, etc. – respondendo por meio de movimentos e descargas hormonais. Depois do nascimento, a criança vai aos poucos demonstrando seus sentimentos e emoções – primeiro o choro, ao estar com fome, sono, tédio ou com a fralda suja; depois os sorrisos que arrebatam nossos corações; as caretas; as gargalhadas, e por aí vai.

Conforme vão crescendo, as crianças vão se deparando com frustrações (não é uma opção deixar o bebê que engatinha colocar o dedo na tomada, por mais que ele queira; assim como também não é legal com o amiguinho não deixar ele escorregar no parquinho) e é nessa hora que nós, pais, temos a grande oportunidade de começar a ensinar sobre emoções e sentimentos.

Culturalmente aprendemos que chorar é sinônimo de fraqueza. Então soltamos aquela linda frase quando vemos uma criança com lágrimas nos olhos (e pulmões e garganta à todo vapor): “não precisa chorar”. Se alguém nos falasse isso quando somos mandados embora do nosso emprego ou quando nosso relacionamento amoroso não dá certo, com certeza olharíamos para o nosso interlocutor com olhos furiosos e falaríamos: POSSO CHORAR SIM! TENHO MOTIVOS PARA ISSO! ME DEIXE SENTIR MINHA TRISTEZA EM PAZ (e eu estou sendo educada, viu leitores, porque a vontade mesmo é mandar a pessoa ir … bom, você sabe). E antes que você pense que é muito diferente e que não dá para comparar a tristeza de um namoro acabado com o brinquedo não comprado, eu lhe digo: não é! Naquele momento, com o cérebro ainda por se desenvolver e não sabendo lidar com frustrações, a criança se sente verdadeiramente chateada e, aquele brinquedo que em até 15 minutos antes ela nem sabia que existia, se torna um baita de um problemão.

Portanto, ela precisa extravasar isso de alguma forma e, não sabendo reagir de modo mais apropriado, ela apela para a forma mais antiga que conhecemos: o choro. O mesmo choro que está presente desde o parto, quando o bebê é avaliado pelo Teste de Apgar e que arranca de nós pais lágrimas de emoção e alívio.

Se não ensinada a reagir com emoções mais sofisticadas e apropriadas, a criança apelará para estes únicos recursos que ela conhece: lágrimas, gritos, murros no chão e toda aquela cena que antes de ter filhos você jurou de pés juntos que sua criança nunca iria protagonizar. É claro que, mesmo com todos os cuidados e toda educação emocional que você poderá proporcionar-lhe, ela ainda te presenteará com essas cenas cabulosas, mas te garanto que serão BEM menos comuns.

Mas vamos parar de blá blá blá e vamos direto ao ponto: como ensinar sentimentos e emoções para crianças pequenas?

1- Não subestime os sentimentos dos seus filhos

Não importa o quão bobo o problema possa lhe parecer. Não importa se a criança está chorando porque quer ir para a escola de meia preta ao invés de meia branca, ou se está brava porque se considera suficientemente grande para ir no banco do carona, ou se está super empolgada acompanhando o trajeto das formigas enquanto você está com a maior pressa do mundo. Não subestime seus sentimentos com frases, como: “ah, você está chorando por causa de uma meia? Que bobagem!”, “Formigas carregam folhas o tempo todo, vamos logo”, “Você tem é que agradecer de ter um carro para andar, pare de reclamar e sente no banco de trás agora”.

Eu super entendo que as vezes a gente está com um problema bem complexo para resolver e também admito que eu também já soltei frases desse tipo com a minha filha. Como qualquer pessoa normal, eu também tenho dias difíceis, em que eu estou com 0 paciência para ficar observando formiguinhas, passarinhos, periquitos e seja lá o que for. Tem dias em que eu estou com pressa, estou cansada, estou com fome ou estou de saco cheio (e na maioria das vezes estou com tudo isso junto). Quero só chegar em casa, tomar um banho e deitar por 5 minutos que seja (nos meus sonhos, no silêncio). Mas eu também entendo que aquilo é importante para ela, assim como um dia também foi importante para mim. Então, nessas horas, agir com empatia ajuda um bocado.

Então, em algumas ocasiões eu respiro fundo e diminuo o ritmo. “Filha, eu entendo que você quer ver a formiguinha, é super legal observar como ela leva a folha para o formigueiro, né! Mas a mamãe está com pressa, então vamos ver só mais um pouquinho, e vamos ok?”. Se após um pouquinho, ela continuar insistindo, eu posso simplesmente pegá-la carinhosamente no colo e, em meio às lagrimas dela, dizer: “Eu sei que você queria ficar mais, mas nós precisamos ir. Mais tarde a gente observa outras formiguinhas!”. Normalmente funciona super bem. E funciona porque eu validei seus sentimentos (eu sei que você quer ver; eu sei que você gostaria de ficar), fui carinhosa e mostrei a possibilidade de, em outro momento, a gente continuar com a observação (e promessa feita TEM que ser promessa cumprida, portanto, não deixe a criança acreditar em algo que você não conseguirá cumprir).

2- Não relacione sentimentos com coisas negativas e/ou preconceituosas

“Chorar é feio”, “Chorar é sinal de fraqueza”, “Homem não chora”, “Não sinta raiva, assim você é uma criança ruim”; “Você fica feia (o) quando grita”, “Você triste parece um menininho mimado”; “Eu não gosto quando você chora”, “Eu fico triste quando você sente raiva”, “Não vou falar com você até você se acalmar”, “Tenho vontade de ir embora quando você grita”.

Essas frases estão repletas de conotações negativas e preconceituosas. Como uma criança poderá aprender que a raiva faz parte da nossa vida, mas que existem outras alternativas para lidar melhor com ela do que gritar ou bater no amigo, se ela acreditar que essa emoção só faz parte dos sentimentos de pessoas ruins e que, quando ela inevitavelmente a sentir, estará entristecendo seus pais? Como ensinar um menino que a tristeza faz tão parte do nosso cotidiano quanto a alegria, se impusermos à ele ideias machistas e ultrapassadas de que homem não chora e que chorar faz com que seus pais não gostem dele? Como ajudar seu filho a encontrar alternativas mais eficazes que os gritos se não dermos a oportunidade à ele de aprender outras opções? Como tornar adultos empáticos, sensatos e equilibrados se passamos uma infância inteira privando-lhes as emoções?

Uma das nossas funções como pais é ensinar as crianças como lidar com sentimentos. A primeira e principal coisa é validarmos seus sentimentos. Todos nós sentimos raiva, medo, tristeza, alegrias, etc. Essas emoções fazem parte da nossa espécie e nos ajudam a viver melhor. Afinal, como saberíamos que existe alegria se nunca tivéssemos sentido tristeza? Como saberíamos que respirar fundo e conversar é muito mais eficiente, se um dia não tivéssemos gritado e dado murros na mesa para então percebermos que isso não adiantava nada e, que ao contrário, só piorava tudo? Como saberíamos da nossa força interior se um dia não tivéssemos sentido medo, mas mesmo assim o enfrentado?

Além disso, reprimir os sentimentos na infância traz sérios problemas no futuro. Existe uma doença chamada alexitimia, distúrbio cognitivo e afetivo que consiste na dificuldade em diferenciar, reconhecer e manifestar sentimentos e exprimi-los em palavras e ações [2]. Imagine as consequências desse distúrbio na vida social e emocional de um adulto.

3- Não encare os maus comportamentos como algo pessoal

É muito frustrante quando seu filho mira as mãozinhas e te dá um belo tapa no rosto. Dói na alma, nos entristece e nos irrita, além de automaticamente vir na nossa cabeça “onde eu errei?”, “porque ele está fazendo isso comigo?”. Primeiro, existem diversos motivos para uma criança bater, morder ou fazer uma “birra” (detesto essa palavra). Pode ser para chamar a sua atenção, pode ser para demonstrar que algo não vai bem, pode ser para expressar um descontentamento, etc. Desejável? Nem um pouco! Adequado em termos de desenvolvimento cerebral? Absolutamente.

Quer ver só? Você não esperaria que seu filho olhasse para você e com a voz firme, mas simpática lhe dissesse: “Papai, eu estou me sentindo cansado. Não quero continuar nesta loja, por mais que eu saiba que você precisa comprar um presente para a mamãe. Por favor, podemos ir embora e fazer isso amanhã?”. Seria estranhíssimo e engraçado, certo? E porque isso não soa natural? Porque nós sabemos que crianças pequenas não tem esse tipo de maturidade cerebral; elas simplesmente não conseguem esperar e muito menos sabem lidar com as suas emoções. Então, ela prepara a mão e PAH, te dá um tapa do tipo “to de saco cheio de ficar aqui, quero ir embora”.

Antes que você fique chateado e leve isso para o lado pessoal, lembre-se desta frase (vou até deixar em negrito): Quando os filhos sentem que estão ligados aos pais de maneira segura, eles se sentem confiantes o bastante para testar esse relacionamento. Em outras palavras: o mal comportamento dele é, frequentemente, um sinal da confiança que ele sente por você [3].

É por isso que normalmente seus filhos podem ser uns santos com a vovó ou na escola e comportar-se de outro modo na sua presença. Não é pessoal; é que em você ele confia tanto que ele sabe que pode testar todas as emoções que mesmo assim continuará sendo amado. A gente faz um pouco disso: somos muito mais diretos (e, num dia ruim, grosseiros) com quem mora conosco do que com um desconhecido na rua. Agora que você pode respirar aliviado ao saber que seu filho não dá uns tapinhas porque sente raiva de você, na próxima vez que acontecer, você terá a mente livre para pensar em como educar esse comportamento ruim.

4- Seja o exemplo

Essa regra serve para tudo quando falamos sobre educação infantil, inclusive quando falamos sobre sentimentos. Teve uma vez que eu estava me sentindo muito triste com um acontecimento e comecei a chorar. Sofia entrou no quarto e ficou pensativa me olhando. De repente ela se sentou ao meu lado na cama e me perguntou “que, mamãe?”. Eu poderia ter inventado qualquer coisa, mas achei que seria uma oportunidade de explicar a ela um pouco sobre o que estava acontecendo. Eu apenas disse: “Mamãe está triste porque aconteceu uma coisa que me chateou. Então eu estou chorando.” Sabe o que ela fez em seguida? Ela me abraçou e me disse “sofia aqui”. Sim, ela me abraçou!

“Sua filha é especial”. Não, ela não é especial (bom, para mim sim, mas daí é outra história). Ela apenas repetiu o que eu faço com ela quando ela chora. Normalmente eu sento ao lado dela e pergunto “o que foi, filha?” e depois eu a abraço e digo “a mamãe está aqui”. Se o choro foi causado por um mal comportamento, eu converso com ela depois de acalmá-la. “Você chorou porque a mamãe falou que não pode jogar a água do Bob na ração dele, né? Mas agora você sabe que isso não é legal e que se você faz isso, ele fica sem papá.” Pronto. Basta. Eu validei o sentimento, acalmei, abracei e direcionei.

Mas voltando à história do choro, eu tenho certeza que de um modo ou de outro ela entendeu, porque quando ela vê outras crianças chorando agora, ela diz “o nenê tá chateado, tá choiando mamãe”. Eu ensinei que a tristeza faz parte. Seja o exemplo, sempre!

5- Não humilhe seu filho

Parece forte essa frase né. E é! Eu já cansei de ver cenas como esta, em que mães e pais humilham publicamente os seus filhos e ensinam, da pior forma possível, sentimentos como vergonha e inferioridade. Se você acha que nunca presenciou algo assim, você se engana. E se você um dia já fez algo assim com o seu filho, por favor, não repita.

Você não precisa corrigir o seu filho na frente de todo mundo. Aliás, você não gostaria de ser corrigido pelo seu chefe na frente dos seus colegas de trabalho. Isso só lhe traria sentimentos de vergonha, raiva e baixa auto-estima. O mesmo se dá com os pequenos. Evite falar mal da sua criança na frente dela (aliás não fale mal dela em nenhuma situação). Já ouvi de muitas mães frases como “fulano está malcriado demais, fazendo birra toda hora, tenho vontade de sumir” ou então “olha filho, como essa menininha é comportada. Ela não é igual você, desastrado e bagunceiro”. Ah gente, pra que? O que você ganha em falar isso para uma criança de dois ou quatro anos? Além de deixá-lo para baixo (com razão), você só estará ensinando que é importantíssimo se comparar com os outros e que os outros são muito melhores que ele (e aquela menininha educada pode ter acabado de fazer uma bela meleca na mesa). Por isso, não humilhe seu filho, nunca!

6- Seja sincero com os seus sentimentos

Não estar bem algum dia é ok. Dar um chilique e gritar com sua criança mais cedo ou mais tarde vai acontecer, por mais que você seja um monge de calmo e estude sobre sentimentos. Nós somos humanos, cheios de falhas. Não se culpe se um dia as coisas não saírem conforme você planejou, nem sempre sai e isso também é ok.

Aprendi com a maternidade que é importante ser sincera com os meus sentimentos e que isso tem um impacto profundo na educação da minha filha. Não adianta eu querer ser a mãe mais calma do mundo, se é da minha natureza ser agitada. Não adianta eu querer sempre estampar um sorriso no rosto se por dentro eu estou despedaçada. A criança percebe quando estamos forçando a barra. É nítido quando tentamos ser o que não somos. Então meu conselho é: seja verdadeiro com você mesmo e seja do jeitinho que você é, sem um personagem sabe. É claro que estamos a busca por melhoramento sempre, mas se colocarmos uma máscara para os nossos filhos, em algum momento ela irá cair.

Aprendi ao longo desses 2 anos que terá dias em que eu estarei radiante e terá dias que eu não terei essa paciência toda. Descobri que não é porque a Sofia bate nas minhas coxas que ela não tem direito à um pedido de desculpas. Muitas vezes eu errei com ela e ok me desculpar. Até nos nossos erros nós educamos nossos filhos.

Descobri que acolher a criança na hora da birra (argh!) faz com que ela seja mais curta. Descobri que respeitar a criança é tão importante quanto respeitar qualquer adulto, seja ele rico, pobre, jovem ou idoso. Descobri que eu não tenho o direito de subestimar os sentimentos de ninguém, muito menos da minha filha. E descobri que cabe à mim dar os direcionamentos que ela precisa para ter um emocional saudável.

Fontes Consultadas

[1] VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Etapas do desenvolvimento emocional. In: VOLPI, J. H.; VOLPI, S. M. Psicologia Corporal. Curitiba: Centro Reichiano, 2006.

[2] FERNANDES, N.; TOMÉ, R. Alexitimia. Revista Portuguesa de Psicossomática, v. 3, n. 2, 2001.

[3] SIEGEL, D. J.; BRYSON, T. P. Disciplina sem drama. São Paulo: nVersos, 2016.

Organização de brinquedos: muito mais importante do que você imagina

Legos jogados por todo lado, massinha de modelar no sofá da sala, bonecas despenteadas e peladas no corredor, carrinhos no banheiro, comidinhas no quintal. Você já deve ter visto essa cena né? Se não espalhados pela casa, alguma vez você já deve ter se deparado com brinquedos espalhados e com o caos no quarto dos seus filhos. Mas dá (e precisa) ser diferente. Vem comigo!

(Créditos da imagem: Barrett Ward)

Desde que eu me descobri grávida da Sofia eu venho estudando à fundo sobre desenvolvimento infantil (principalmente no que diz respeito às funcionalidades cerebrais), educação orientada, disciplina positiva, Maria Montessori, filosofia Waldorf, e por aí vai. A pesquisa de um modo geral sempre fez parte da minha vida; me considero uma pessoa extremamente curiosa, ávida por conhecer, descobrir e aprender. Isso se tornou muito mais latente em mim depois das minhas experiências profissionais como pesquisadora e cientista. E, claro, não seria diferente quando eu tivesse um filho.

De todas as minhas leituras relacionadas à bebês e crianças pequenas, algo era muito repetido e disseminado: a organização. Não apenas a organização física dos brinquedos, como iremos abordar neste artigo, mas toda e qualquer tipo de organização: desde a organização da casa para receber o recém-nascido até a organização da família à que ele ou ela venha a pertencer, com as rotinas bem definidas e consistentes.

Embora eu não siga à risca um método específico, eu me inspiro em muitos, pesando o que mais funciona para a minha família. Em relação à organização do espaço, especificamente, eu gosto muito do método Montessori (e se você tiver mais interesse nesse assunto, por favor, me dê um alô). Gabriel Salomão comanda brilhantemente um site chamado Lar Montessori, e em um de seus posts ele fala sobre a organização do ambiente da criança, baseado nos ensinamentos da Maria Montessori (médica e educadora que criou um método de ensino totalmente voltado para o respeito à individualidade de cada criança). Mas antes de falarmos sobre a organização de brinquedos em si, vamos falar do por que isso é tão importante para o cérebro e, claro, para o crescimento do seu filho.

Por que a organização é tão importante para crianças pequenas?

A partir do momento em que uma criança está apta para se locomover pelo ambiente em que ela vive (seja engatinhando ou andando), ela precisa explorar o ambiente. Tocar, ver, descobrir, interagir, pegar, arrastar, levar à boca, sentir, etc. são ações que acionam o cérebro infantil e o ajudam, a partir de sinapses e ligações neuronais, a aprender e a compreender o que é o mundo. Explorar o ambiente é uma condição essencial da vida. Por isso que preparar a casa para a chegada de um bebê, deixando-a segura e explorável, é tão necessário.

Porém, como uma criança poderá explorar objetos (e se concentrar neles) se tudo se encontra bagunçado? Ou ainda, como que uma criança poderá explorar um brinquedo se tem ao seu lado outro, outro e mais outro, roubando-lhe o foco de atenção a todo momento? Não é incomum vermos crianças pulando de brinquedo em brinquedo e, apesar da quantidade e variedade disponível, aparentar não se satisfazer com nenhum. Assim como não é incomum depois de ganhar vários brinquedos novos, a criança abandoná-los em um canto e brincar justamente com aquele velho brinquedo de sempre. Nós, como pais, não sabemos onde enfiar a cara perante àquele parente que escolheu tão cuidadosamente o presente dado e vê o seu objeto ali jogado em um canto qualquer.

Nem sempre isso significa que a criança não gostou dos brinquedos novos. Tampouco que ela não se contenta com os brinquedos que ela já possui. É que seu cérebro em desenvolvimento muitas vezes não consegue dar conta de tanta informação e estímulo. Pensemos juntos! Imagine que você ama sapatos e, para sua sorte, você ganhe de uma vez dezenas deles. Como você reage? Você pode olhar e provar cada um deles, mas você concorda que sua atenção em cada um estará distribuída proporcionalmente ao número de pares que você ganhou? Ao passo que quando você ganha apenas um você olha com atenção cada detalhe – o salto, a sola, o couro, o detalhe no bico. A atenção não é a mesma, percebe? Nem teria como ser.

O mesmo ocorre com todos os brinquedos disponíveis de uma vez. A criança não sabe com o que brincar primeiro, então ela joga os blocos no chão, começa a montar e… vê aquela boneca tão bonita e corre lá para brincar com ela, mas… jogar bola parece ser mais interessante e então depois de uns chutes, por que não brincar de massinha? E aí o caos está formado: ela se sente frustrada, você se sente frustrado, a casa tá uma bagunça só, o cachorro resolveu entrar no meio e destruir uns brinquedos, e aí vem o choro sentido pelo bloco mordido, você bravo mandando a criança guardar tudo (e agora, senão vai ficar de castigo!), o cachorro com o rabinho entre as pernas sem entender o motivo de você estar bravo com ele também, e o resto você consegue imaginar.

Leitor querido, sinto-lhe informar, mas a culpa não foi da criança, muito menos do cachorro. A culpa foi sua, dotado de um córtex-pré frontal totalmente desenvolvido, e que ainda assim possibilitou a formação desse caos todo. Daí o resultado tão desastroso: você indo para a cama cansado psicologicamente, com a lombar doendo de catar tanto brinquedo, o cachorro na caminha (por sorte, ele já esqueceu a bronca) e seu filho desanimado e querendo mais brinquedos. E o ciclo recomeçará no outro dia, com certeza.

Mas agora que você já tem uma noção do por que isso acontece (e descobriu que não é seu filho que é desorganizado, mas sim o ambiente que não lhe é favorável), vamos ver como fazer essa organização e ter ideias de como fazer o tão eficaz “rodízio de brinquedos”.

Rodízio de brinquedos na prática

Minha primeira dica é que você tenha onde guardar os brinquedos do seu filho, de modo organizado. Se a quantidade de brinquedos for tanta que você não tem onde armazená-los na sua casa, talvez seja preciso ajustar algumas coisas. Será que todos os brinquedos que estão disponíveis são para a faixa de idade do seu filho, ou tem coisa que ele não usa mais ou ainda vai usar no futuro? Se esse for o caso, separe o que ele já não usa e guarde em outro lugar, venda ou doe. Se esse excesso for causado por compras demais, talvez seja necessário rever o consumismo na sua família.

Eu costumo organizar os brinquedos da Sofia dentro do guarda roupa do quarto dela (eu não tenho muito espaço em casa, mas se sua casa for maior, você pode ter um armário – ou parte dele – só para isso. Eu os separo em grandes caixas organizadoras transparentes e com tampa e etiqueto para saber o que tem dentro. Isso é muito útil para mim, porque toda quarta-feira eu faço o rodízio e já sei o que tem dentro de cada caixa.

No canto esquerdo separo os livros que são para brincar: aqueles com colantes e/ou atividades. Na caixa de cima estão todos os Legos duplos dela. Ao lado, na cesta vermelha, estão as frutinhas, panelinhas e talherzinhos: tudo que ela usa para brincar de cozinha. Nas caixas embaixo estão quebra cabeças, brinquedos de madeira, etc.

Já os ursinhos de pelúcia, dedoches, fantoches e bonecas ficam no baú que, fechado, serve de banco para lermos e brincarmos. À esquerda, estão alguns dos bichinhos e bonecas que ficam disponíveis para ela. Toda semana eu troco por outros de dentro do baú.

Por fim, os livros. Esses são os únicos objetos que eu deixo ela ter total acesso sempre que ela quer, porque para a minha família livros são deixados à vista sempre. Na estante ao lado, ao alcance dela, estão os livros que eu escolho para terem destaque na semana. E no meu quarto, no meu criado mudo, tem um livro que eu escolho para ler para ela todas as noites.

Com os brinquedos organizados – o que facilita muito a minha vida e do meu marido – toda semana nós fazemos as escolhas dos brinquedos que ficarão disponíveis para ela ao longo de uma semana. Aqui nós mudamos toda quarta-feira, mas isso não é fixo, pois se eu percebo que ela não está animada com os os escolhidos, eu troco. Geralmente, funciona bem.

Normalmente, ficam disponíveis na sala e no quarto uma média de 5 a 7 atividades. Eu sempre tento escolher brinquedos com temáticas e objetivos diferentes. Como apreciamos bastante brinquedos de madeira, do tipo educacional, eu sempre deixo um à disposição. Seguido por um brinquedo de montar (que ela adora), um que envolva imaginação ou faz-de-conta, um de encaixe e um para desenvolvimento da coordenação motora fina. Para você ter uma ideia, nesta semana, enquanto escrevo este artigo, os brinquedos estão assim disponíveis:

No quarto – Deixo disponível no criado/prateleira uma bandeja com blocos para empilhar ou fazer torre, a xícara com a chaleira (para fazer “ti”, como ela diz), e blocos de montar livre. Acima, uma almofada (apenas decoração) e a Peppa Pig.

Ainda no quarto, na mesinha de atividades – Um brinquedo do tipo vestir com várias peças em madeira e ímã para ela deixar a princesa Sofia fashion (ou não) hehe

E por fim, na sala – Temos outra mesinha de atividades na sala. Achei importante colocar outra aqui porque é onde mais ficamos e brincamos no dia a dia. Aqui temos disponível um livro de colantes sobre o primeiro corte de cabelo (achei conveniente porque ela irá cortar o cabelo pela primeira vez no sábado :)) e um quebra cabeça de madeira.

Algumas famílias preferem fazer rodízios quinzenais ou diários, mas isso é muito particular de cada dinâmica familiar. O que funciona bem, no entanto, é:

  • Tenha brinquedos e/ou atividades em lugares da casa onde a criança não fica sozinha. Não adianta deixar objetos disponíveis no quarto se a família fica na sala de estar;
  • Se você tem uma estante de livros na sala, inclua alguns exemplares infantis (uns 3 bastam). Isso fará com que ela sinta que pertence ao ambiente e tira o foco dela dos livros que não a pertencem;
  • Tente escolher brinquedos com funcionalidades e objetivos diferentes. Deixar disponível blocos de montar de EVA, lego e blocos de madeira fica muito monótono;
  • Utilize uma bandeja para organizar os brinquedos menores, principalmente os que contém peças soltas. Isso ajuda muito a não perder pecinhas por aí e mostra para a criança que aqueles brinquedos se relacionam entre si;
  • Prefira móveis, bandejas e acessórios mais neutros. Isso ajuda a criança a focar no brinquedo em si e não na mesa cheia de bichinhos;
  • Seja flexível com o rodízio. Se a sua criança pede para brincar de carrinho e não tem nenhum disponível, guarde um que ela não está interessada e ofereça os carrinhos que ela deseja;
  • Se seu filho está gamado naquele jogo de tabuleiro, deixe ele permanecer mais algumas semanas com ele. Só mude quando ele realmente não aparentar mais interesse (Sofia ficou com massinha de modelar disponível por uns dois meses);
  • Ofereça os brinquedos novos um a cada semana (ou espace mais, se preferir). Isso ajuda o cérebro a se focar e a experimentar as várias funcionalidades de cada vez (lembra dos sapatos, né?);
  • Sempre, sempre e sempre estimule seu filho a guardar os brinquedos no mesmo lugar e em ordem. E lembre-se: de nada adianta um espaço organizado para as crianças se o seu próprio é caótico;
  • Lembre-se que em casos de brinquedos com muitas peças, como Lego por exemplo, seu filho não conseguirá guardar tudo sozinho. Esteja disposto a ajudá-lo;
  • Quando sua casa estiver uma bagunça, lembre-se que o cérebro desenvolvido é o seu, então cabe à você resolver o problema e fazer alguns ajustes;
  • E nunca se esqueça que nada nesse mundo, brinquedo nenhum, substitui a presença e o carinho. Seu filho não precisa ter tantos brinquedos, mas da sua atenção e do seu tempo de qualidade ele irá precisar sempre!

Redes sociais: amiga ou inimiga da felicidade?

Quase todo mundo tem uma rede social, seja uma conta no Facebook, Instagram, Twitter ou Whatsapp. Com elas podemos nos conectar com amigos e familiares distantes ou conhecer pessoas novas e interessantes. Mas até que ponto as redes sociais trazem benefícios ao nosso bem-estar? Vamos refletir juntos?

(Créditos da imagem: Robin Worrrall)

Eu nunca vou esquecer da minha primeira rede social: o falecido Orkut. Ele revolucionou, de certa maneira, a forma com que eu me relacionava com as pessoas. De repente, eu estava online cercada pelos meus amigos e tendo a oportunidade de aumentar meu ciclo de amizade conhecendo os amigos dos amigos dos amigos. O Orkut me possibilitou até conhecer meu marido (é, não sei como contarei isso para a minha filha num futuro distante, assim espero). Eu me sentia quase uma super heroína com poderes especiais, porque sem precisar sair da minha caverna de adolescente, eu podia conhecer e conversar com pessoas do mundo todo.

Com o tempo vieram outras redes sociais e de comunicação, como o MSN (saudades…), Skype, Facebook, Instagram, Twitter, Linkedin, Youtube, Whatsapp e por aí vai. De acordo com a Revista Exame, só no Brasil, 62% (bem mais da metade, pasmem!) da população está ATIVA nas redes sociais (ativa, meu povo!). As redes sociais têm sido tão utilizadas que elas tiveram impacto até nas eleições presidenciais. Nesse contexto, a Revista Valor nos traz a incrível (e preocupante) pesquisa do IBGE que afirma que 94,2% dos brasileiros (j-e-s-u-s) usam a internet para trocar textos e imagens (isso explica muuuiiita coisa…).

É MUITA gente conectada! E isso que estamos falando só do Brasil…

Com tanta coisa sendo compartilhada na Internet, será que esse uso está sendo vantajoso ou desvantajoso para nós? No que diz respeito ao nosso bem-estar, ter 500 ou 600 amigos no Facebook, 300 ou 1.000 seguidores no Instagram e 30 grupos super ativos no Whatsapp, nos faz bem ou mais felizes? Sua felicidade e satisfação podem ser medidas pelo número de curtidas que as suas fotos recebem? Ter uma rede com 1.000 amigos virtuais te satisfaz e te deixa com a sensação de ser mais amado e mais querido? Receber 100 comentários recheados de elogios em uma selfie te faz ter mais auto-estima?

Se estamos cada vez mais conectados uns com os outros, porque também estamos cada vez mais depressivos?

As vezes, navegando nas minhas redes sociais eu fico me perguntando porque nós “temos” que postar tudo (ou quase tudo) que fazemos no nosso dia a dia para que todo mundo veja. Fico me perguntando porque estamos expondo tanto as nossas crianças, nossos animais, nossa família e nós mesmos. Fico tentando achar uma resposta no por que temos que mostrar ao mundo nossa felicidade de todo santo dia, se em alguns deles nem estamos verdadeiramente felizes. Fico tentando lembrar quando é que alguém falou “poste”, “poste”, “poste”. “Se comprou um carro novo, poste”. “Se está com o corpo sarado, mostre”. “Se acordou se sentindo bonito, compartilhe”. “Viagem? Poste!”. “Comida? Poste!”. “Piscina? Compartilhe”. “Joias? Ostente!”. E tudo isso para que? Ou melhor… para quem? Ou melhor ainda… por que?

Sim, eu tenho Facebook, Instagram, Whatsapp, Linkedin, Messenger e a parafernalha toda. Sim, eu posto foto de comida (daí surgiu esse cantinho). Eu faço stories fofos com a Sofia. Eu sigo algumas youtubers. Eu bato papo com meus amigos pelo zap. Eu gosto das redes sociais; eu fico feliz em reencontrar amigos de infância, de ver que uma colega de faculdade foi mãe, de ver as fotos do casamento daquele menino que estudou comigo na terceira série, de ver rostos de parentes e familiares que estão a quilômetros de mim. Eu acho útil estar em alguns grupos de Whatsapp, principalmente para saber o que está acontecendo no colégio da minha filha ou sobre como posso servir a minha vizinhança. Também gosto de receber umas piadas de vez em quando ou ver fotos fofas dos cachorrinhos das amigas. Eu gosto de estar conectada. Eu já pertenço a esse mundo. Mas resolvi não ser escrava dele.

Resolvi que não preciso rolar o scroll 20x na minha timeline. Percebi que número de curtidas, seguidores, comentários, etc. não significam absolutamente nada. Descobri que morro de preguiça de curtir fotos e de dar parabéns (desculpem, mas é verdade). Reparei ao longo dos anos que algumas pessoas são tão diferentes de mim que ok se eu apagá-las das minhas listas. Aprendi que um amigo não deixa de ser amigo se não me responder no mesmo dia uma mensagem do Whatsapp (mesmo que ele tenha lido) e que eu também não preciso responder sempre ou na hora. Resolvi que tem dia que simplesmente não quero estar disponível e é meu direito. Aprendi que a melhor declaração de amor é aquela feita olho no olho, sem plateia. Descobri que viajar sem wi-fi é maravilhoso e que desconectar as vezes é o melhor detox que a gente pode fazer por nós mesmos. Eu reparei que comentar por comentar é como dar bom dia no elevador: as vezes você faz educação, outras por afeição e outras por obrigação. Aprendi que ser querido independe de número de amigos; daí entra aquele velho bordão: tenha poucos, mas bons companheiros. Reparei que conteúdos mais sérios e inteligentes não são os mais bem aceitos. Mas também descobri que esses são os meus favoritos. Resolvi não expor tanto a minha filha nas redes, pois eu só tenho direito sobre a minha imagem.

Aprendi, resolvi, reparei, descobri tantas coisas depois de muitas tentativas do tipo acerto e erro. Como um ser humano cheio de erros e acertos eu já:

  • Senti uma invejona daquele amigo na praia enquanto eu estava com um coque no cabelo e uma vassoura na mão;
  • Me perguntei porque todo mundo estava feliz e eu não;
  • Fiquei triste quando, ao perder o emprego, vi que todos estavam com suas carreiras mega promissoras e garantidas;
  • Me perguntei porque todo mundo podia ser mãe menos eu (antes de engravidar);
  • Me senti fracassada quando vi fotos de crianças sorridentes e educadas enquanto a minha estava subindo pelas paredes; e por aí vai.

Até eu perceber que a vida mostrada nas redes sociais é coberta por filtros e edições. É muito raro a gente se deparar com conteúdos extremamente sinceros. E se você não consegue enxergar por trás das imagens perfeitamente editadas certamente você irá cair na armadilha de achar que todo mundo é ou está melhor que você.

Não caia nisso, meu amigo leitor. Se eu puder te dar uns conselhos, com licença:

Não acredite apenas nas fotos maravilhosas que são mostradas. Se elas não são ilusórias, muitas vezes também não são 100% real. Use suas redes com discernimento. Se afaste delas de vez em quando. Ensine seus filhos a não acreditarem em tudo que eles vêem. Seja grato à sua vida e não se compare com ninguém; o que vemos é apenas o produto final e não o processo para se chegar à ele. Não se exponha tanto. Passe mais tempo com quem você ama, sem celular, sem tablet, sem internet. E tenha em mente que certas coisas são mais valiosas na memória.

Na SUA memória.

Não na do seu celular.

Fontes consultadas

Revista Exame. 62% da População Brasileira está Ativa nas Redes Sociais. Disponível aqui.

Revista Valor. IBGE: 94,2% dos brasileiros usam internet para trocar textos e imagens. Disponível aqui.